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Em 1925 Carlos César Lenzi escreveu “A Media Luz”, tango que seria imortalizado na voz de Carlos Gardel. 40 anos mais tarde A MEDIA LUZ marcaria a visita de alguns jovens brasileiros a Buenos Aires, que ficariam hospedados na mesma Corrientes, mas não no 348 do tango e sim no 2791, também segundo piso, mas oficina 5. Consta que o grande poeta Baldomero Fernandez Moreno nele se inspirou para escrever o poema Setenta Balcones Y Ninguna Flor. Em 1963, havia ascensor; portero i vecinos, mas adentro, no cocktel ni amor… ni piano, estera y velador… habia un telefon que contesta, una vitrola que llora, viejos tangos de mi flor, y no habia un gato de porcelana. Y todo a media luz; de tarde, te con masitas…
Alguns jovens do Betar do Rio de Janeiro foram participar de uma reuniao latino-america em Colonia Suiza, no famoso Hotel Nirvana. Depois houve a esticada a Buenos Aires, atravessando o Rio de la Plata no Aliscafo, lancha rápida novidade italiana da época, que anos mais tarde seria utilizado na ligação Rio-Niteroi, e hoje não existem mais. Viajamos pela Pan American, avião vazio, apenas um suco de laranja e uma enorme azeitona. O prédio está lá até hoje, Corrientes y Puyrredon, enorme, branco, parece um bolo de noiva. O Betar era e é o herdeiro das tradições e lutas de Yosef Trumpledor, Dov Gruner, Zeev Jabotinski, Menahem Beguin, junto com o Herut, os Revisionistas.
Mais tarde mudou de nome, para Likud, mas as lembranças daquela época fantástica continuam povoando nossas mentes e corações. Foi com muita alegria que vimos novamente aquele mesmo prédio, no bairro agora já não tão judaico quanto naquela época, mesclando-se agora os judeus com bolivianos e coreanos, alias como ocorreu também no Bom Retiro em São Paulo e na Rua da Alfândega no Rio.
Certa vez no Rio de Janeiro conversamos com sábio rabino sobre meu pai, que ele conhecera. Passei a tentar conhecer melhor o seu passado, como era Ostrowiec de onde veio, enfim quem somos. Nas minhas andanças estive em Israel, Los Angeles, Nova Iorque, onde aproveitava para procurar parentes distantes. Mas poucos se interessavam por estas velhas historias. Um ou outro se aproximava mais, estabelecendo laços afetivos, ainda que o parentesco fosse distante, de terceiro grau.
O rabino comentou que as almas dos que pereceram Al Kiddush Hashem estão retornando a esse mundo, e que meu avo Szlama já estava aqui outra vez, mais perto do que eu mesmo poderia supor. Assim é, pois em Buenos Aires com um primo distante tivemos tambem contacto. Marcelo Goland tem 30 anos e apesar da diferença de idade nos é muito próximo, com sua esposa Laura. Marcelo é neto de Abram, que com sua irmã Hennie desembarcou nos idos da década de 20 em Buenos Aires. Estive na casa da sua família em Ostrowiec, na praça do mercado, Rynek 53, onde havia uma joalheria. Hoje a casa ainda está lá, e abriga …. uma joalheria. Ali nos fundos moraram cerca de 50 pessoas das nossas famílias.
Esta viagem foi especificamente para conhecer sua doce Dália, nascida há 3 meses, de quem Marlene foi madrinha em tocante cerimônia no Shabbat da tradicional Sinagoga da Calle Paso onde eles, seus pais e tantos outros haviam se casado, quando a pequena Dália pela primeira vez se viu diante da Torá sagrada, recebendo o nome Tova. Sinagoga tradicional, situa-se no coração do Once judaico, bem perto de Corrientes 2791. Caminhando por ali perto pela Calle Pasteur as arvores na calcada exibem pequenas placas. São 83 homenagens singelas, uma para cada vida perdida no trágico atentado a AMIA, em um fatídico dia de 1994.
As pessoas passam apressadas ao lado das arvores testemunhas mudas do que pode a maldade humana. Até hoje nada foi apurado. Mas a AMIA renasceu das cinzas, e hoje um moderno edifício de 10 andares abriga as instituições judaicas, como a Organização Sionista, DAIA, cemitérios, cultura e outros. O prédio realiza um sonho jamais realizado aqui no Rio de Janeiro, onde as instituições estão dispersas. O prédio se parece muito com o da Jewish Community of Los Angeles. Embora este tenha um volume talvez 3 vezes maior, sua estrutura de escritórios panorâmicos e a arquitetura interior muito se assemelha a AMIA.
Graças ao Presidente da FESELA, consegui vencer a impenetrável barreira da segurança. O havia conhecido no CONFARAD em São Paulo há poucos meses, e graças a sua intervenção fui recebido pelo presidente da Organização Sionista Argentina, e seu diretor executivo. Ficou acertado que faríamos um intercambio, e que eles deveriam ir ao Rio em breve, mais especificamente a Barra da Tijuca, e se possível Morro de São Paulo na Bahia, atual must dos argentinos… O pátio de entrada da AMIA abriga uma original escultura de artista israelense e placas recordatorias dos atentados contra a Embaixada de Israel e a AMIA.
Uma placa destaca-se pelo seu relevante capital simbólico, mostrando os nomes de algumas dezenas de argentinos que envergando o uniforme das Forcas de Defesa de Israel, ou vitimados em atentados terroristas, fizeram o sacrificio supremo da própria vida, em lutas e atentados teroristas desde antes da fundacao do Estado.
Imediatamente nos perguntamos por que uma placa como essa não foi ainda afixada em alguma instituicao judaica, onde mostraria tembem os nomes dos 42 herois brasileiros judeus que defenderam a patria contra a Alemanha nazista na fileiras das forcas nacionais de terra, mar e ar, e na FEB – Força Expedicionaria Brasileira.
Partimos levando muito material da DAIA, AMIA, OSA, Vaad haChinuch, e uma serie de subsídios que certamente poderão ser aplicados no Brasil. Após passar pela elegante lojinha, repleta de artesanato judaico e materiais didaticos, não foi dificil encontrar um restaurante familiar nas proximidades, Sukhat David na calle Tucuman, onde recordamos as delicias da comida judaica, hoje em dia não tão fáceis de encontrar no Brasil.
Admirando ao longe o belo e funcional prédio recuado da AMIA, construído no mesmo local onde um ato insano tirou a vida de tantos inocentes, ficamos com uma profunda certeza de que o futuro do judaísmo argentino será bastante promissor.
Por que apenas os prédios podem ser destruídos – almas e sonhos jamais poderão ser bombardeados.












