AS ESPANHOLAS DO SEXTO ANDAR
Em Paris, nos anos 60, nos prédios antigos o sexto andar havia as chamadas chambres de bonnes, os quartos das empregadas nos andares inferiores. O cineasta Philippe le Guay lembra-se de que, quando ainda pequenos, havia em sua casa uma empregada espanhola, que, talvez inconscientemente lhe tenha influenciado a fazer o filme. A imigração espanhola foi a mais forte na França, nos anos 60, seguida, logo pelos imigrantes portuguêses. Com o fim das ditaduras de Franco e Salazar e a entrada da Espanha e Portugal na União Européia, diminuiu essa emigração, substituída pelos árabes do Magreb e em vias de ser substituída pelos imigrantes do Leste europeu. O filme As Mulheres do Sexto Andar é uma deliciosa comédia sobre seis empregadas vivendo nos pequenos quartos de empregada de um prédio burguês, sem água corrente, sem chuveiro e com toalete coletivo do tipo militar. Com o excelente ator Fabrice Luchini, no papel principal masculino, a comédia conta o envolvimento de um dos patrões do prédio, um senhor maduro, com sua jovem empregada espanhola, a ponto de ir também viver num daqueles quartos, quando sua esposa enciumada o enxota de casa. Os tempos mudaram, reconhece o próprio diretor do filme, com o aumento do racismo na França e na Europa, seguido de uma política restritiva de imigração. Os recentes problemas econômicos em Portugal e Espanha estão fazendo lembrar os anos 60, porque como cidadãos da União Européia, portanto acim das restrições imigratórias, muitas espanholas e portuguesas começam a retornar aos quartos de empregadas dos bairros mais chiques.
SHAKESPEARE EM VERSÃO MODERNA
Raph Fiennes é o diretor e o principal ator do filme inglês Coriolanus, filmado como se a guerra entre Roma e os Volcos ocorresse nos nossos dias, com tanques de guerra, bazucas, metralhadoras da última geração e gente morrendo e correndo nas ruas. Foi a Sérvia que cedeu os locais para os confrontos entre o herói romano Caius Martius, mostrado como um sanguinário homem de guerra, e seu adversário Tullus Aufidius. O filme, apesar de usar armas de guerra atuais gUarda a linguagem shakesperiana, e esse é o seu principal sabor. Linguagem ainda mais marcante, quando pronunciada pela imponente atriz inglesa Vanessa Redgrave, no papel de mãe guerreira de Caius Martius, cujo nome passa a ser também Coriolanus, em homenagem à sua vitória sobre os Volcos, na batalha decisiva de Corioles. A vitória de Martius Coriolanus lhe deu enorme popularidade e sua ambiciosa mãe, Volumnia, como políticos amigos querem ver o herói militar transformado em homem de Estado, como Consul. Mas para isso, Coriolanus precisa ser eleito, e o guerreiro acostumado a responder taco a taco os golpes de seus inimigos, militar sem outra formação, não sabe fazer discursos políticos para conquistar eleitores. Mesmo porque tem, como é comum nas classes dominantes, um profundo desprezo pelo povo. Por isso, provocado por alguns membros da oposição e populares revoltados, pois Roma vivia penúria e fome decorrrentes da guerra, assina sua derrota ao perder o controle e injuriar os plebeus romanos e tudo transmitido pela televisão. Coriolanus de herói se tranforma, num piscar de olhos, na mais detestada de todos as personalidades romanas e sofre a punição suprema da época, comparável à cassação dos direitos políticos seguida do ostracismo ou banimento de Roma. Orgulhoso, ferido na sua vaidade de guerreiro vencedor, revoltado com a ingratidão popular, Coriolanus decide se vingar, unindo-se ao seu inimigo Tullus Aufidius, que por ele parece ter uma atração mesmo física, para juntos destruírem Roma. Em outras palavras, de herói vira traidor. Antes de ser filme, a peça de Shakespeare foi encenada no teatro, em Londres, dela fazendo parte a atriz Vanessa Redgrave, e o ator Gerard Buttler, nos papéis que interpretam no cinema, de Volumnia e Tullus Aufidius. Para quem não se lembra do ator e diretor Ralph Fiennes, basta lembrar ter interpretado o comandante do campo de concentração no filme de Spielberg, A Lista de Schindler.
DIVÓRCIO À IRANIANA
O filme iraniano Nader e Simir, uma Separação mostra uma situação inesperada e pouco conhecida no Irã, país mais conhecido pelo seu fundamentalismo, pela prisão do cineasta Jafar Panahi e pela ameaça de lapidação de Sarineh por adultério. O filme se constrói em torno de um divórcio entre um casal da classe média, depois de 14 anos de casados e com um filha adolescente. A esposa quer tentar a vida em outro país, o marido não pode, pois seu pai sofre de Alzheimer e dele depende totalmente. Depois de uma discussão diante do juiz, digna de filme italiano, é rejeitado o divórcio por não haver um consenso entre os cônjuges. Mas, Simir, a mulher, larga o marido e vai viver com a mãe, renunciando viajar diante da decisão da filha de ficar com o pai, esperando com isso – vai se saber mais tarde – forçar a mãe a retornar ao lar. Na verdade, não há nenhum problema grave no casal, mas incompatibilidade de gênios. Sem a mulher em casa, Nader, o marido, contrata uma empregada para tomar conta do pai, durante sua ausência no trabalho. A empregada, pertence a outra categoria social, a dos pobres, que, como explicou o diretor do filme Asghar Faradi, são mais religiosos e guiam sua vida pelo Corão. Quando o velho pai de Nader, incontinenti e senil faz suas necessidades nas calças, surge o primeiro problema – segundo os preceitos corânicos pode a empregada limpar seu bumbum ? Pelo Profeta, não, porque tal limpeza só podem fazer os membros da família, mas a empregada consegue uma dispensa para isso. Dois dias depois, ao voltar do trabalho com a filha, estressado, o marido encontra a porta do apartamento fechada e, ao entrar, descobre seu pai caído no chão inconsciente, com a mão amarrada na beira da cama. A empregada, que traz consigo a filha pequena, pois não tem onde deixá-la, ao retornar ao apartamento é repreendida, pois Nader não sabe que seu pai, mesmo senil, tinha saído do apartamento sozinho e foi encontrado por ela na rua. A coitada, gravida de algumas semanas, chegou a receber um choque, quase atropelada por um carro. Como parece ter desaparecido dinheiro, Nader culpa a empregada que, religiosa não suporta a acusação. Na discussão, Nader empurra a empregada, que cai nas escadas, é levada ao hospital e tem um aborto. Foi o empurrão que matou o feto ? Caso positivo, Nader pode pegar até três anos de cadeia. Essa a trama desse bom filme iranianao, mostrando um país em fase de modernização.
JAFAR PANAHI
Vir a Berlim, quando o Festival denunciou a prisão de Jafar Panahi, que deveria estar no júri mas cumpre pena de seis anos de prisão e foi proibido de fazer cinema por 20 anos, exige uma tomada de posição. E foi isso que um jornalista pediu, na primeira pergunta. E o cineasta Asghar Farhadi não se negou « Nenhum cineasta do mundo pode fica indiferente ao que se passou, disse. E eu estou ainda mais triste porque conheço Panahi pessoalmente. No dia da manifestação aqui em Berlim, eu lhe telefonei e me senti ainda mais triste porque eu vinha para o Festival ao qual ele não pôde vir. » O cineasta, que não se inspirou da vida pessoal para fazer um filme sobre divórcio, conta haver um número enorme de divórcios no Irã. E revela haver uma oposição surda entre o moderno nas classes mais elevadas e a classe pobre, religiosa, que rejeita a modernidade.
























