Há poucos dias, recebi um inusitado convite, enviado pelo Portal Amazônia Judaica, para participar de uma cerimônia comemorativa dos 200 anos da presença dos judeus naquela região. Precedeu o convite um telefone amável do Sr. David Salgado, ele mesmo originário de Manaus, mas vivendo em Israel. Ele informou que a cerimônia seria num auditório ao lado da Grande Sinagoga de Jerusalém. Entre outras funções, David Salgado é também Coordenador de Projetos do Departamento de Anussim (cripto-judeu, ver www.shavei.org).
Estive uma vez em Manaus, a convite de um General que então comandava a Região Militar da Amazônia. Ele se orgulhava por fazer a patrulha de avião, e pediu-me referir aos amigos que tinha em Israel da vasta área territorial que comandava. A Terra Santa seria, comparativamente, uma pequena ilha. Para mostrar-me Manaus e arredores, um oficial, se não me falha a memória um Coronel, me acompanhava. E, assim, pude, pela primeira vez na minha vida, ver e entender o que era o Rio Amazonas. Deu para conhecer muita coisa, inclusive o local onde a tropa se exercitava na Selva Amazônica. Um dia, aquele suposto Coronel não veio e saí sozinho com o motorista. Um rapaz bem moreno, simpático, puro amazonense. Ele olhou-me através do retrovisor e disse:
– Doutor, posso fazer uma pergunta? O senhor é brasileiro, é israelita ou é de Israel?
– Sou brasileiro, judeu e vivo em Israel – respondi.
Eu estava sentado no banco de trás e não pude ver a sua fisionomia, mas me pareceu ter ele me respondido com um sorriso:
– Eu também sou descendente, quero dizer, meu avô era judeu; eu já sou católico. Aliás – a apontou com o dedo –, meu avô está enterrado aí, no Cemitério Israelita de Manaus. E, orgulhosamente, disse seu sobrenome.
É extraordinária a história dos judeus na Amazônia. Dela tomei conhecimento através do livro que intitula a presente crônica, escrito pelo Professor Samuel Benchimol, já falecido, que foi Professor Emérito da Universidade de Amazonas. É uma verdadeira saga. Poucos sabem ou podem imaginar que a presença judaica moderna na Amazônia (para não referir à que existia ao tempo pré-colonial no Brasil) teve início ainda em 1810. O Professor Benchimol fez uma pesquisa e um estudo em grande profundidade sobre os judeus na Amazônia.
Ele refere-se a dezenas de comunidades da hinterlândia. Cita os nomes, que menciono por mera curiosidade: Gurupá, Cametá, Macapá, Breves, Baião, Itaituba, Boim, Aveiros, Santarém, Óbidos, Alenquer, Monte Alegre, Juruti, Faro, Oriximiná, Parintins, Maués, Itacoatiara, Manaus, Manacapuru, Coari, Tefé, Manicoré, Humaitá, Porto Velho, Guajará-Mirim, Fortaleza do Abunã, Rio Branco, Tarauacá, Sena Madureira, Iquitos, Yurimaguas, Pucallpa, Contamana, Tarapoto, Caballococha, Letícia e outros lugares.
De onde vieram os judeus para a Amazônia? A grande maioria do Marrocos, muitos, descendentes de judeus portugueses e espanhóis expulsos pela Inquisição. Alguns de origem asquenazita. Nomes? Alguns facilmente identificáveis pela sua origem, como: Kadosh, Ansallem, Benzaken, Benchimol, Serruia, Assayag, Abekassis e muitos outros. Também encontramos nomes como Mendes, Siqueira, Pazuelo, Senna, Marques, Pinto, Alves, Bentes; e, claro, não faltaram os Levis e os Cohens.
O autor deu-se o trabalho de pesquisar e assinalar nomes de empresas comerciais criadas naquela época por aqueles imigrantes judeus. Também assinala que, no decorrer dos anos, houve grande assimilação, casamentos mistos, resultando, segundo avalia numa projeção do crescimento populacional ao longo de 100 anos, em cerca de 286.859 habitantes de ascendência judaica na Amazônia no ano de 1997. Mas Benchimol mesmo assinala: “Pode parecer um absurdo matemático, face à existência atual de 750 famílias, correspondente a 3.000 judeus praticantes”.
Voltando ao meu motorista amazonense que, depois de ter revelado a sua origem, disse que muito pouca coisa se lembrava de seus avós, embora algo tivesse ficado marcado em sua memória. Contou que o avô morava na beira do rio.
– Era amancebado – ouvi um risinho –, ao que parece, com algumas índias. Tinha muitos filhos. Já na velhice vivia da pesca. Ali, da casa dele, jogava a rede e peixe não faltava. Na casa dele tinha uma daquelas estrelas de vocês. Lembro que uma vez por ano lá se juntava toda a família. A gente passava um dia inteiro comendo do bom e do melhor e, depois, ficava, no dia seguinte, sem comer nada e sem beber!!!…
Tudo isso me leva a pensar e a considerar as pesquisas que vêm sido feitas no Brasil para tentar averiguar quantos brasileiros seriam de origem judaica. As opiniões divergem e, evidentemente, há muita especulação e fantasia a respeito.
No entanto, mencionaria apenas um seriíssimo pesquisador israelense, de uma das importantes universidades de Israel, que tem viajado várias vezes para o nordeste brasileiro. Disse ele, em uma reunião da qual participei na sua universidade, que ainda não havia terminado seu trabalho, razão pela qual não publicou, até agora, o número de descendentes de judeus no Brasil, mas que ele estimava girasse em torno de 30 milhões.
Eretz Amazônia foi, para os imigrantes judeus que lá se estabeleceram há 200 anos, considerada a Nova Terra da Promissão.
Marcos Wasserman é advogado em Israel, Brasil e Portugal, e é presidente do Centro Cultural Israel-Brasil em Tel Aviv. E-mail: mlwadvog@netvision.net.il