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O Cordoba Center – por Jayme Copstein

Assisti, na semana passada, reportagem da Globo News sobre a polêmica em torno da construção do Cordoba Center, centro cultural islâmico, com uma mesquita, nas proximidades do local onde ficava o World Trade Center (WTC), em Nova York. A matéria antecipava manifestações que ocorreram neste domingo e foi conduzida sob a ótica da liberdade religiosa.

Não me parece que, no caso, a liberdade religiosa esteja em questão. Os islâmicos podem construir suas mesquitas onde bem entenderem, cá no Brasil ou em caixa-prego, e devem tê-lo feito tanto em Nova York como em qualquer outro ponto do território norte-americano, nestes nove anos desde que militantes radicais destruíram as duas torres do WWC em ato de guerra.

A recíproca não é verdadeira. Ninguém conseguirá construir templo de outras religiões no Irã porque os aiatolás não deixarão. O argumento tem sido levantado por quem se opõe ao Cordoba Center, mas esse não é o ponto. O que estão discutindo em Nova York não é a liberdade religiosa. Tal como a liberdade de pensamento, nunca esteve em questão nos Estados Unidos. O tema do debate é a inadequação do local, marcado para sempre pela tragédia de 2001.

Feisal Abdul Rauf, líder da comunidade muçulmana norte-americana, defendeu a localização do Centro, dizendo que marcaria naquele local posição para defender a fé muçulmana, homenagear os mortos e separar os terroristas como fanáticos que desrespeitaram os verdadeiros princípios do islamismo.

Estas declarações recentes de Rauf contrastam suas declarações em entrevista ao programa “Sessenta Minutos”, logo depois da tragédia do WTC. Na ocasião, afirmou que a política mundial dos Estados Unidos havia contribuído para o episódio. Diante da repercussão negativa, Rauf viu-se obrigado a esclarecer o que pretendera dizer. Alegou que falava das ações da CIA, de apoio os talibãs, quando os invasores do Afeganistão eram os soviéticos. Como se dissesse que o feitiço havia se voltado contra o feiticeiro.

Se é assim, se ele foi sincero nas duas as ocasiões, a polêmica não é de difícil solução. Basta que o Centro Córdoba perpetue em um monumento, dentro de sua área, mas facilmente visível a quem por ali passar, a condenação ao atentado de 2001, o pesar pela morte de milhares de pessoas e a repulsa a qualquer tipo de terrorismo, seja a que pretexto for.

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A paz do Oriente Médio – por Jayme Copstein

Daqui a uma semana, líderes palestinos e israelenses estarão reunidos na enésima tentativa de pacificação, desta vez patrocinada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, “sem condições prévias”. É a retomada de negociações, interrompidas há um ano e oito meses e também a reprise de Campo David, quando Bill Clinton pareceu ter conseguido um acordo entre Arafat e Ehud Barak. Em vão. Arafat voltou para Gaza e ficou o dito pelo não dito.

A reviravolta deixou Bill Clinton atônito. Nas memórias publicadas pouco depois deixar a Presidência dos Estados Unidos, conta a sua frustração ao relatar o diálogo com Arafat, ao recebê-lo em visita de despedida na Casa Branca.

“O senhor foi um grande estadista”, lhe disse Arafat. “Não”, respondeu Clinton. “O senhor não permitiu que eu fosse.”

Clinton não entendeu que o obstáculo maior para os entendimentos no Oriente Médio está no desentendimento entre os próprios islâmicos sobre a questão palestina. Pode-se até debitar como “erros do passado”, como tem sido arguido como justificação, o assassinato do rei Abdulah da Jordânia porque aceitava a realidade dos dois estados, o judaico e o palestino, ou de Anwar Sadat, presidente do Egito, o primeiro mandatário islâmico a reconhecer a existência de Israel. São muito recentes, porém, a ocupação do Sul do Líbano pelo Hizbollah e o massacre de lideranças cristãs, quando Ehud Barak retirou unilateralmente o exército israelense da região, para mostrar boa vontade, e a expulsão do Fatah pelo Hamas, na Faixa de Gaza, quando Ariel Sharon repetiu o gesto, com a mesma intenção.

Oxalá todo este raciocínio esteja errado e se consiga, desta vez, dar paradeiro à tragédia do Oriente Médio. Contudo, Barack Obama parece estar destinado não a se decepcionar como Clinton, que apesar disso saiu engrandecido da Casa Branca, mas a fazer companhia a Jimmy Carter, do qual, passados 30 anos, pouca gente lembra que também foi presidente dos Estados Unidos.

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No cemitério de Praga – por Jayme Copstein

A Editora Record comprou os direitos de tradução e publicação no Brasil de obras inéditas de Umberto Eco, celebrizado pelo sucesso de “O nome da rosa”. O primeiro lançamento, em 2011 (na Itália, já sai mês que vem) é “O Cemitério de Praga”, história de conspirações e assassinatos vivida por espiões e políticos, tendo o velho Cemitério Judaico da capital tcheca como cenário principal. Não é a primeira vez que este Cemitério serve de cenário a histórias macabras. É o mais antigo das necrópoles judias da Europa. Os nazistas não o destruíram porque pretendiam transformá-lo, com a Sinagoga, em “museu de uma raça extinta”. Certamente, os mentores da maluquice tinham em mente o capítulo de um romance do Século 19, “Biarritz”, de “Sir John Retcliffe”. Intitulado “No Cemitério Judaico de Praga”, relatava a fictícia reunião de treze rabinos, conspirando para dominar o mundo.

“Sir John Retcliffe” era pseudônimo do falsário Hermann Goedsche, demitido dos serviços postais da Prússia por fabricar um “dossiê” (já naquela época!) contra o socialdemocrata Benedic Waldeck. Tido como agente secreto da polícia prussiana, Goedsche engajou-se a fundo no antissemitismo fomentado pelo chanceler Bismarck nos embates políticos de 1848. Produziu farta propaganda antijudaica. O capítulo referido de “Biarritz” mais tarde inspirou o serviço secreto russo, ao tempo dos tzares, a forjar outro “dossiê”, “Os Protocolos dos Sábios do Sião”, em que os nazistas acreditavam com toda a convicção, como se fossem dogmas.

Não está fora de propósito, portanto, supor que o zelo nazista pelo Cemitério Judaico de Praga tivesse a ver com esta origem de sua bíblia antissemítica. Não é o caso de Umberto Eco, cuja fixação pela capital tcheca tem outra origem – a brutal repressão soviética de 1968, que testemunhou e à qual alude no início de “O nome da rosa”. Eco já tinha sido publicado no Brasil pela Perspectiva, antes de seu best-seller torná-lo conhecido. Era texto de pequeno interesse fora do meio universitário. Esquematizava a estruturação e redação de trabalhos acadêmicos. Quando “O nome da rosa” estourou em 1980, alguns zoilos andaram resmungando que se tratava do livro mais citado e menos lido depois da Bíblia.

Se a referência à repressão soviética teve alguma coisa a ver com isso, é difícil de saber, mas também não está fora de propósito pensar-se no vínculo. A Primavera de Praga, como ficou conhecido o episódio da liberação do comunismo tcheco e seu esmagamento pelas tropas soviéticas, está entre os fatos mais contundentes, mas é o menos citado da história dos anos 1960.

Aconteceu tanta coisa naquela década: Vietname, Woodstock, Maio em Paris, feminismo, assassinato de Martin Luther King, só para citar alguns dos acontecimentos daqueles tempos de decisiva e transformadora rebelião, relembrados até hoje nos meios de comunicação e também fartamente documentados em livros. Toda a ênfase, porém, é posta no idealismo de Chê Guevara, também assassinado em 1968, cuja imagem continua estampando camisetas nas manifestações de rua. Sobre os mortos da Primavera de Praga, a discrição tange o limite, ultrapassado o qual caímos no silêncio sideral.

Guevara foi a teoria de um idealismo, cuja prática é a Primavera de Praga. Entre os dois, a teoria e a prática, a frase que os tchecos escreveram nos muros de sua capital, perguntando aos soldados soviéticos que os massacravam: “Vocês não eram nossos amigos?” Se não for o epitáfio de uma utopia é o ícone de certas ingenuidades.

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A justiça das mãos – por Jayme Copstein

O drama vivido por Sakineh Mohammadi, a mulher iraniana condenada a morrer apedrejada pelos aiatolás, comove o mundo e particularmente camadas significativas da população brasileira. Pena que alguns segmentos pródigos em manifestações ruidosas quando se trata de casos como o do terrorista Cesare Battisti, assassino condenado pela Justiça italiana, não se manifestem agora em defesa daquela pobre mulher, vítima de uma sociedade que não conseguiu sair ainda da Idade Média.

É bom que o drama vivido por Sakineh tenha comovido parte significativa da sociedade brasileira. Mostra como evoluímos positivamente, aqui, no que diz respeito aos direitos humanos. Quem se der ao trabalho de percorrer jornais antigos vai se surpreender com as cenas de selvageria protagonizadas por cidadãos “indignados”, decididos a fazer justiça pelas próprias mãos.

Tenho anotações de um caso, colhidas nos jornais de 1899, envolvendo um francês, José Pomaret, na cidade do Rio Grande. Em 16 de agosto daquele ano, uma menina de dois anos que brincava na calçada, na frente de casa. Foi levado por um desconhecido para as macegas que existiam no fim da Rua Francisco Marques. Só ao anoitecer, a garotinha reapareceu, com as vestes rasgadas, bastante machucada e com evidências de ter sofrido estupro.

O crime chocou a população, cujo clamor movimentou a Polícia. Já no dia seguinte, era preso José Pomaret, acusado da autoria. Nem isso acalmou a revolta popular. As pessoas começaram a lotar a Praça João Telles (hoje Xavier Ferreira), em frente ao Quartel da Guarda Municipal, onde o francês estava preso, exigindo que ele lhes fosse entregue para ser ali mesmo justiçado.

Às 8 da noite, a multidão decidiu invadir o Quartel. Houve arrombamento dos portões, tiroteio, e por fim Pomaret foi retirado da cela e trucidado pelos manifestantes ensandecidos. O espetáculo de selvageria completou-se com o cadáver arrastado pelas ruas da cidade, até ser queimado no mesmo lugar onde se dizia ter ocorrido o estupro.

O “Almanak do Rio Grande do Sul”, de Alfredo Ferreira Rodrigues, na edição de 1902, traz relato a respeito do episódio e conclui com estas linhas: “É o primeiro exemplo que se dá no Rio Grande; mas esse foi tremendo e servirá de exemplo aos celerados que ousam afrontar a lei e a moral, em satisfação aos seus instintos bestiais.”

Passados muitos anos, na década de 1940, um funcionário do antigo Banco da Província, Nelson Penna, me falou do caso e contou que, passado algum tempo, descobriu-se ser o francês inocente, tal como ele bradava enquanto teve fôlego para falar, antes de ser morto. Já não havia o que se pudesse fazer para consertar a “justiça” pelas próprias mãos.

Nelson Penna não testemunhou os acontecimentos de 1898. Era menino então e dele só ouviu falar pelos mais velhos. Referiu-se, porém, a um mito: a terra por onde o cadáver de Pomaret fora arrastado, tornara-se estéril, como sinal dos céus para perpetuar o remorso no coração da multidão que o martirizara.

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Hitler no Maranhão – por Jayme Copstein

A coluna “Os sósias de Hitler” despertou bastante interesse entre os leitores. O jornalista Ney Gastal nos remeteu o relato de uma lenda, encontrada em blogs, que afirma ter Adolf Hitler estado no Maranhão em 4 agosto de 1944, logo após atentado sofrido em 20 de julho, no seu quartel-general de Rastenburg, Prússia Oriental. A contribuição do Ney Gastal é didática. Mostra como se constroem versões na Internet, nem sempre por má intenção, meramente pelo desejo de contar “um causo”. Aí, nem mesmo a coerência que fatos associados devem guardar entre si, é levada em conta.

Segundo o relato, mal explodiu a bomba que quase o matou, “um de seus “oficiais, em agonia (?!?), encaminhou Hitler ao submarino “de sua confiança (?!?), o S-199, que seguiria, em segurança, para lugar incógnito e remoto. Para fugir das conspirações de parte de seu exército, que o queria morto. (…) De acordo com o Diário de Bordo do SS-199, citado na reportagem da Der Spiegel, Hitler e sua amante, Eva Braum, estacionaram no dia 4 de agosto daquele ano a 2°o7′57” de Lat. S e 44°36′04” de Long. W”. Estas são as coordenadas geográficas de Guimarães, no Maranhão”.

FCMoraes, leitor mais atento do Blog do Alexandre (http://tinyurl.com/2bckhcx), já havia detonado a geografia do conto: “Experimenta colocar estas coordenadas 2° 7’ 57” de Lat. S e 44°36’ 04” de Long. W. no Google Earth e vais ver que este ponto é no continente. A menos que o litoral tenha avançado em direção ao mar (…). A lenda, recheada de mais detalhes, descreve Eva Braun entediada com a reclusão, pedindo “para ser levada, de bote, à noite, à praia avistada pelo telescópio”, onde ganhou camarões de um pescador.

Sem outras considerações para não se perder mais tempo com a historinha, o prefixo dos submarinos alemães era “U”, não “S”. De fato, existiu o U-199. Era o submarino que andava torpedeando navios brasileiros em nosso litoral. Foi afundado em ação conjunta da FAB e da Força Aérea Americana, em 31 de julho de 1943, um ano antes da Operação Valquíria, o atentado cometido contra Hitler em 20 de julho de 1944.
Salvaram-se 12 de tripulantes do U-199, incluindo o comandante Hans Werner Kraus. Todos foram levados para os Estados Unidos, para serem interrogados. Só foram libertados após terminar a guerra. Hans Werner Kraus viveu até 1990.

Mas que fosse outro o submarino: nos dias subsequentes ao do atentado, Hitler esteve frenético, exigindo o julgamento sumário e a execução imediata dos mentores da Operação Valquíria, ordem cumprida com requintes de crueldade. Foram todos enforcados com arame de aço, içados a ganchos de açougue. Um filme foi feito, exibindo para Hitler, naquela mesma noite, mostrou os condenados estrebuchando, enquanto as calças caiam-lhes aos pés. Haviam lhes tirado as cintas, para cobrir de ridículo o espetáculo da sua morte.

Hitler não se afastou da Alemanha, e isso é comprovado por fatos e testemunhos. Logo depois do atentado, em 23 de agosto de 1944, diante inevitável derrota na frente ocidental, emitiu ordem para incendiar Paris, descumprida pelo comandante das forças nazistas de ocupação, general Von Choltitz. É célebre a frase de Hitler, angustiado com a falta de notícias que confirmariam a destruição da capital francesa: “Está Paris em chamas?”

Nunca houve dúvida quanto ao suicídio de Hitler na tarde de 30 de abril de 1945, em Berlim. Foi relatado por várias testemunhas e cadáver foi fotografado, sendo a foto amplamente divulgada após o término da guerra na Europa.

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Lula e seus companheiros – por Jayme Copstein

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva meteu-se em camisa de onze varas nesta questão da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada a ser apedrejada até a morte por “crime” de adultério.

Lula, homem de pequena instrução formal, incapaz de perceber e manter a conexão que as ideias devem guardar entre si, não tem condições de assimilar o intrincado labirinto das Relações Internacionais. Deixa-se levar pelos arroubos de Marco Aurélio Garcia que também não percebe a diferença entre uma sala de diretório acadêmico, onde reinou como agitador, e o mapa mundi, no qual não passa de figura hilariante.

O resultado desta salada mal temperada foi o erro crasso de o Presidente do Brasil dirigir-se diretamente ao Presidente do Irã (“companheiro Ahmadinejad”), para oferecer asilo a Sakineh, contra todas as regras da diplomacia, e descabidamente por não se tratar de crime político, nem a interessada o ter solicitado.

Ahmadinejad, para conter a gafe nos limites da descortesia e não ter de reagir diante da clara interferência em negócios internos de seu país, sequer se dignou a responder ao “companheiro” Lula. Incumbiu um aspone de terceiro escalão, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, de mostrar-se indulgente porque o emotivo “senhor Lula (…) não recebeu informações suficientes”. De maneira mais sutil, repetiu o “Por que não te callas?” do Rei da Espanha a Hugo Chaves, porém acrescentado de um “ não sabe do que está falando”.

Segundo avaliação do Governo brasileiro – leia-se do cérebro privilegiado de Marco Aurélio Garcia, o Meternich da Azenha – a culpa é da imprensa. Se as “negociações” entre Brasil e Irã tivessem ocorrido nos bastidores, Lula traria Sakineh para cá e fecharia com “chave de ouro” os cinco meses que lhe restam de mandato.

O fato de Lula ter conclamado o “companheiro Ahmadinejad” em comício eleitoral mostra que os repórteres são uns asnos. Como não perceberam que era tudo segredo de estado, apesar dos milhares de pessoas que estavam assistindo ao comício?

Lula, por sua vez, ficou feliz por ser considerado um homem emotivo e humanitário. Mas o aspone iraniano tem razão: ele não sabe do que está falando. Se soubesse estaria se juntando a milhões e milhões de vozes indignadas que se levantam em todo mundo, protestando contra mais este crime da feroz ditadura dos aiatolás.

Sakineh Mohammadi Ashtiani foi condenada inicialmente a 99 chibatadas por manter “relações sexuais” fora de casamento, crime segundo o fundamentalismo islâmico. A pena foi aplicada publicamente, testemunhada pelo seu filho.

Um dos homens com quem Sakineh manteve o relacionamento “ilícito” era o assassino de seu marido. Ao ser julgado, alegou já ser amante da mulher antes de cometer o homicídio, com a clara intenção de convencer os juízes que fora induzido por ela para fazer o que fez. Com isso, atenuou sua culpa naquele mundo de fanatismo medieval.

Sakineh foi julgada novamente, desta vez por adultério. Não há provas fora de sua participação, fora do alegado pelo assassino, tanto assim que dois juízes a absolveram. Três a condenaram à morte por lapidação.

A imprensa tem noticiado “apedrejamento”. Ainda que não seja incorreta, a palavra é insuficiente para descrever a crueldade do suplício: as pedras são desbastadas para ter bordas afiadas. Machucam, cortam, maceram a vítima, como se ela fosse submetida a um lento moedor de carnes.

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Os sósias de Hitler – por Jayme Copstein

Admar Mendonça Ferreira gostou de “As mortes de Napoleão” (coluna de ontem). Também achou que não dá para acreditar na história de Napoleão Bonaparte ter vivido como joalheiro em Verona, indo um sósia em seu lugar para a Ilha de Santa Helena. Ele pergunta se é ou não verdadeira a versão de que Adolf Hitler e Eva Braun não se suicidaram em Berlim, mas fugiram para a Argentina. Sósias é que teriam se suicidado em seu lugar.

É mito, nascido do fato de não terem sido achados os despojos do casal nazista quando Berlim caiu. A suspeita de que os russos haviam ocultado os restos do casal nazista foi confirmada no fim das União Soviética, com a liberação de documentos até então considerados secretos. Stalin pretendia usar a incerteza da morte de Hitler como trunfo nas cartadas da Guerra Fria que já iniciara antes mesmo de terminar a II Guerra Mundial.

A versão mais corrente sobre a fuga secreta do ditador nazista não fala em sósias, mas em cadáveres de soldados, incinerados para que nem seu próprio sexo pudesse ser identificado. Seja como for, favorece o surgimento desses mitos o pouco que vem à luz sobre os bastidores do poder em qualquer época.

Por exemplo, a Gestapo nunca utilizou um sósia de Hitler porque ele não permitia. Dotado de imensa vaidade, considerava-se o messias da germanidade. Daí não admitir alguém à sua “imagem e semelhança”. Paranoico a não mais poder – nisso também se igualava a Stálin – quem pudesse ser confundido com ele seria risco permanente de conspirações para apeá-lo do poder.

O recusa de Hitler de usar sósias fez a Gestapo desenvolver procedimentos especiais para preservar sua segurança, neles incluindo mudanças de trajetos ou dos horário de suas aparições públicas, impedindo o planejamento sem o qual os atentados não são exequíveis.

Mesmo assim, não faltaram histórias fantásticas sobre um inexistente atentado, no qual teria morrido Julius Schreck, o motorista de Hitler. Segundo a versão, Schreck não era motorista, mas “obscuro professor do interior da Baviera” que, por ser cópia tão fiel, impressionara o próprio Fuehrer. Convocado para ser seu sósia, teve de submeter a regime para emagrecer – era um pouco mais gordo – e usar sapatos com solado alto para compensar os três centímetros que lhe faltavam em altura.

Honrado com a tarefa, ainda segundo a versão, Schreck concordou em se tornar motorista de Hitler, revezando-se com ele na direção. E assim encontrou a morte, quando fingindo ser o Fuehrer, sentou-se no banco de trás, enquanto Hitler fingia dirigir o carro em viagem para Bernau.

A história é absolutamente sem sentido, a começar pelo absurdo de Hitler utilizar um sósia como motorista. Julius Schreck realmente existiu e foi motorista de Hitler, mas não há referência alguma a semelhanças físicas entre os dois.

Schreck militou no Nacional Socialismo desde o início, e desde o início dedicou-se à segurança pessoal de Hitler. Participou da tentativa de golpe de estado em Munique, conhecida como Putsch da Cervejaria. Foi preso com os demais líderes nazistas.

Quando o Partido foi reorganizado em 1925, subiu na hierarquia das SS e chefiou a guarda pessoal do Fuehrer. A partir de 1930, efetivamente dirigia o carro de Hitler, mas como homem de confiança, não mero serviçal, E o fez até 1936, quando adoeceu de meningite e morreu em uma cama de hospital. Foi sepultado com honras, discurso de Hitler e promoção post-mortem.

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Batalha da Inglaterra – por Jayme Copstein

A Copa do Mundo obscureceu a efeméride redonda de 70 anos de vários acontecimentos cruciais da Segunda Guerra Mundial, como a epopeia da Retirada de Dunquerque e a tragédia da Rendição da França.

Pois este dia 9 de julho, também de 1940, marca o início de outra epopeia, a chamada Batalha da Inglaterra, quando a Alemanha Nazista submeteu as cidades britânicas a bombardeio aéreo maciço, não poupando áreas civis, com o pretexto de destruir o moral da população e levá-la a exigir do governo que se rendesse.

Os nazistas tinham o dobro de aviões de combate e contavam com isso para eliminar a resistência dos ingleses. Surpreendeu-os a bravura e o heroísmo retratados por Winston Churchill na frase: “Nunca tantos deveram a tão poucos”. Ajudados pelo radar, tecnologia que só eles conheciam na época, os ingleses puderam identificar o local preciso onde podiam dispor com vantagem seu poucos aviões contra os muitos dos alemães.

Quando a Batalha da Inglaterra terminou em novembro daquele mesmo ano, as perdas da Luftwaffe, a Força Aérea Alemã, tinham sido tão graves, que não puderam mais ser refeitas totalmente e colocaram Hitler em desvantagem, a partir de então, no curso da II Guerra Mundial.

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De Durban a Tel Aviv – por Jayme Copstein

Converso com Nahum Sirotsky, que há muitos anos vive em Israel e é correspondente do jornal “Zero Hora” de Porto Alegre e do portal Último Segundo, do Centro do País. Nahum tem em seu extenso currículo desde passagens por jornais importantes do mundo, como “The New York Times” à criação de “Senhor”, sem dúvida alguma a melhor revista cultural que já se fez no Brasil.

Se eu tivesse de descrever o que há de melhor nele como jornalista, começaria, é claro, pelo talento específico, do qual fazem parte a curiosidade insaciável e a “antena” ou “faro” para perceber os desvãos dos fatos onde a notícia se esconde. Agregaria, também, relações com profissionais da diplomacia que sabem, com meses de antecedência, alguma vezes até anos, o rumo que os acontecimentos estão tomando.

Mas conversava com Nahum, ontem de manhã, seis horas de diferença no fuso horário, ele em Tel Aviv, eu no Bairro Petrópólis, graças ao milagre da Internet. E falamos sobre a Copa do Mundo, se o Michel chutou aquela bola para fazer o gol ou se apenas quis passar e, de “chiripa”, acabou marcando. Falei-lhe sobre o “cacete” que a revista alemã “Der Spiegel” está descendo sobre a cabeça de Joseph Sepp Blatter, o presidente da Fifa.

Blatter tem procurado passar imagem de Madre Tereza de Calcutá do Futebol e mostrar seu amor pela África, trazendo a realização da Jules Rimet para a República Sul-Africana, decisão que o Presidente Jaco Zuma qualificou de “voto de confiança da comunidade internacional”. A reportagem de “Der Spiegel” publica também o outro lado, o das críticas que acusam Blatter DCE ser um oportunista e de ter modificado as normas para favorecer cumprir promessas eleitorais aos africanos, cujos votos o conduziram e o mantêm na Presidência da Fifa desde 1998.

Nahum me chama a atenção que a Copa desviou o foco do noticiário, dos acontecimentos do Oriente Médio onde prosseguem os desdobramentos. Escapou de todos uma pequena nota, dando conta que o Auditor Geral de Israel, Micha Lindenstrauss, decidiu examinar as ações do Governo para impedir a flotilha de suposta ajuda humanitária de chegar a Gaza, e que isso pode resultar na queda do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pelas trágicas consequências do episódio.

O Auditor Geral de Israel, eleito por sete anos, é independente, só deve satisfações ao Knesset (Parlamento) e tem poderes para analisar qualquer ato do Governo, apurando se foram executados segundo os princípios da ética e da eficiência. Micha Lindenstrauss, no cargo desde 2005, após ter sido Presidente da Corte Suprema, deve decidir se as decisões de Netanyahu e do ministro da Defesa, Ehud Barak, por sinal o mais condecorado militar da historia de Israel, estiveram ou não de acordo com aqueles princípios.

Há precedentes, como o de 1973, quando Golda Meir, pioneira e até agora a primeira e única mulher a governar o país, e Mosche Dayan, o do tapa-olho, o maior herói militar da moderna história israelense, foram responsabilizados, por imprevisão, pelas dificuldades na defesa contra o ataque egípcio. Golda e Dayan perderam prestígio, os cargos (ele era Ministro da Defesa) e foram para casa e para o esquecimento.

O mesmo pode acontecer com Netanyahu e Barak.

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Atrás do bate-boca – por Jayme Copstein

Passada uma semana do incidente com o navio Mavi Marmara, a militância continua em guerra contra Israel. Há muitos slogans, frases feitas, adjetivos depreciativos, mas nada de novo no palavreado que já tem sido usado contra outros “inimigos”. É a surrada violência, disfarçada de indignação, típica dos “tribunais do povo” do nazismo e do estalinismo, onde tudo pode ser dito contra o acusado e nada pode ser alegado em sua defesa: o julgamento é uma farsa para justificar a condenação prévia, por interesses políticos.

O Conselho de Segurança da ONU prometeu investigação descomprometida, mas já surgiram protestos de “ONGs” obscuras, contestando o “direito” de Israel de usar os vídeos, mostrando os soldados sendo atacados pelos militantes islâmicos, antes de reagir. A alegação é a de que foram “apreendidos ilegalmente” e não podem ser vir como prova.

Descontadas fantasias jurídicas de quem se impressiona com os “julgamentos” do Law&Order, não há prova mais cabal do que aconteceu: os vídeos foram filmados pelos próprios militantes. Com que intenção é difícil saber. Se tivessem sido bem sucedidos, provavelmente para exibi-los como troféu, como fazem com outros vídeos mostrando degolamentos e empalações, vistos livremente no You Tube por quem tenha estômago para tanto.

Como a empreitada saiu mal, só querem exibi-los a partir da reação dos soldados israelenses, para fazê-la parecer gratuita e excessiva diante de “pacíficos ativistas”. É a velha tática de contar a História, começando por onde lhes convém, como acontece em relação à Segunda Guerra Mundial, que só parece ter começado quando os nazistas ousaram atacar a sacrossanta União Soviética. Escamoteiam o fato antecedente da aliança de Hitler e Stalin, o consequente massacre da Polônia e a divisão dos despojos entre ambos.

Segundo as informações, o Mavi Marmara transportava 600 pessoas, entre pacifistas sinceros, simpatizantes da causa palestina e militantes islâmicos. Se realmente os soldados israelenses tivessem chegado ao navio disparando contra a “multidão” como foi alegado, não haveria apenas nove mortos – todos, por coincidência, militantes islâmicos – e nenhum soldado teria sido ferido – foram sete, atingidos por facadas, bordoadas com barras de ferro e com tiros de pistola, os dois em estado mais grave.

Há também alegações de ilegalidade quanto à interceptação, de parte de Israel, de navios que se dirijam a Gaza, para fiscalização da carga e repressão ao contrabando de armas. O Hamas, que domina a área, está em guerra declarada contra Israel, expressa por palavras e ações militares concretas (bombardeio com foguetes). Nesse caso o bloqueio é previsto pela legislação internacional, legitimando a interceptação, mesmo fora de águas territoriais, de quem expressamente pretenda furá-lo, seja a que pretexto for.

O que pode e deve se discutido no episódio é o que aconteceu verdadeiramente no Mavi Marmara, o único dos seis navios do comboio onde se registram as cenas de violência. Naquele dia, as cinco outras embarcações, bem como o Rachel Corrie, dias depois foram também abordados, a carga foi inspecionada, levada ao porto de Ashod, de onde seria encaminhada a Gaza.

O resto é mero bate-boca ideológico.

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Sócrates e o Hamas – por Jayme Copstein

Estava começando a reler o discurso com que Sócrates se defendeu, em vão, no tribunal que já o condenara à morte antes mesmo de ouvi-lo, quando me chegou o noticiário sobre o incidente protagonizado por soldados do Exército israelense e militantes pró-islâmicos no navio turco “Mavi Marmara”. Fui logo para Internet, tentado saber o que acontecera de fato. Ressalvadas algumas vozes comedidas, chocadas com a tragédia, porém advertindo da necessidade de informações completas para a emissão de juízo, logo explodiu a histeria de sempre quando se trata de Oriente Médio.

Não vou enumerar os massacres com dezenas e até centenas de milhares de vítimas em eventos na Nigéria, Somália, Sudão, Saara Ocidental, Tibet, Etiópia e em outros cenários de uma extensa lista porque boa parte dos leitores sequer terá prestado maior atenção no noticiário que enumerou as mortes como se fora em um balanço contábil. Chamou-me a atenção, todavia, entre as sentenças dos “tribunais populares” que logo congestionaram determinados sites, a observação de um “juiz” sobre “qual desfaçatez Israel vai arranjar agora para negar sua culpa”. Daí, pincei alguns parágrafos do discurso de Socrates, que me parecem muito atuais, mesmo tendo sido pronunciados há 2.400 anos:

“Qual a impressão que, cidadãos de Atenas, os meus acusadores vos causaram não sei, mas, quanto a mim, quase cheguei a me esquecer de mim mesmo, tão persuasivos foram os seus argumentos. E, não obstante, é difícil achar no que disseram uma palavra verdadeira. Entre as muitas falsidades que proferiram, uma houve que me deixou perplexo – foi quando afirmaram que devíeis estar de sobreaviso, para não vos deixardes iludir por mim, dado eu ser um formidável orador. Por isso pensei que a maior desfaçatez do seu procedimento foi a falta de pudor de se verem desmentidos pelos fatos, quando eu aparecesse perante vós tal como sou, jamais como hábil orador; salvo se eles chamam hábil orador àquele que é verdadeiro. (…) que a vossa atenção não se prenda à forma do meu discurso, pois talvez seja pior, ou talvez seja melhor – e considereis de preferência e atentamente apenas isto: se o que digo é justo ou não, pois nisso consiste a virtude de juiz, enquanto a virtude do orador consiste em falar a verdade”.

O Conselho de Segurança da ONU condenou o uso da força que resultou na tragédia, mas acrescentou a necessidade de uma investigação “imediata, imparcial e transparente”. A investigação do Conselho de Segurança da ONU é por demais necessária. Com toda a certeza, vai começar por um vídeo do governo israelense, mostrando soldados, antes de reagir, sendo agredidos pelos manifestantes pró-islâmicos com barras de ferro e machadinhas, quando o helicóptero os desceu no navio turco. O vídeo pode ser visto aqui.

O próprio Governo israelense reconheceu que houve erro tático e deve punir a incompetência de quem comandou a abordagem do Mavi Marmara com poucos soldados, insuficientes para conter os alegados 600 manifestantes que o navio transportava. No meio de pacifistas sinceros, com toda a certeza havia militantes treinados para entornar o caldo, como é comum em qualquer movimento de massas.

Não prever a hipótese é convite à tragédia.

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Lula e Chamberlain – por Jayme Copstein

O Irã se comprometeu a trocar, em território turco, 1.200 toneladas de urânio pobre por urânio purificado em proporções suficientes para o uso pacífico. O acordo foi assinado com o Brasil e a Turquia, dois países que não tinham delegação para negociar acordos em nome Estados Unidos, Rússia, China, União Europeia e Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA), afora nada estarem exigindo do Irã.

Foi por isso que Teerã concordou com os termos do acordo, porque sequer deixa subentendido que vai permitir a inspeção da AEIA e cessar o processamento do restante de seus estoques em instalações secretas, para desenvolver armas de destruição em massa.

O Presidente Lula festejou com euforia a “vitória da diplomacia”, em atitude muito semelhante a do Primeiro-Ministro Britânico, quando sacudiu um papel assinado por Adolf Hitler, “a paz do nosso tempo”, como disse textualmente. Um ano depois, o mundo mergulhava na Segunda Guerra Mundial.

É absolutamente improvável que a conduta de Lula conduza o mundo a uma guerra mundial, porque nem ele tem cacife para tanto nem o mundo necessita da sua contribuição para se engalfinhar. Provavelmente, o eventual prejuízo será de caráter pessoal, no ano que vem, quando se candidatar a secretário-geral da Organização das Nações Unidas e os desdobramentos da crise iraniana reeditarem, com maior repercussão ainda, o fiasco que protagonizamos em Honduras, patrocinando casa, comida e roupa lavada para Zelaya e sua corte.

A comunidade internacional, com indisfarçável sorriso de mofa, aguarda a publicação dos termos do acordo que, até agora, nada acrescenta ao que fora proposto ao Irã no ano passado, mas recusado porque teria de ser firmado com países com força para exigir o cumprimento do prometido.

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