COMPARTILHAR

por André Lajst – Prezada Duca Rachid, é com profunda insatisfação que escrevo estas palavras que pretendo que cheguem até você. Há poucas horas, terminei de ler sua entrevista à Fepal, Federação árabe Palestina do Brasil, publicada no dia 28 de março de 2019.

Confesso que o começo e o meio da sua entrevista, entendo profundamente as suas palavras sobre ondas migratórias e xenofobia ao redor do mundo. Compartilho, assim como você, de extrema solidariedade ao povo sírio pelo desastre que assolou um país e causou uma das maiores ondas de refugiados da história da humanidade.

Porém, ao ser perguntada sobre a questão palestina, além de inexatidões e notícias falsas, você compartilhou um pensamento perigoso e extremamente problemático para atingir o objetivo que você diz ter enraizado em sua existência: a paz.

Sobre territórios

Primeiramente, Israel conquistou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza da Jordânia e do Egito, respectivamente, em uma guerra defensiva, pois os dois países, dominados por, esses sim, ditadores, falavam abertamente na destruição do Estado de Israel. Quando você diz “ocupação militar da Palestina” você entra em um tema extremamente polêmico e com muitos detalhes históricos e para falar sobre ele, conforme você tentou e falhou, é preciso ter o conhecimento necessário, caso contrário, acontecerá o que vimos em suas palavras: Inexatidões, inverdades e fake news.

Sobre resoluções da ONU

Parte dessas inexatidões é a sua menção às resoluções do Conselho de Direitos Humanos da ONU contra Israel. Quando falamos sobre o Conselho de Direitos Humanos da ONU, imaginamos que as resoluções que eles fazem são baseadas nos valores universais de liberdade e justiça. Certo? Errado. O Conselho de Direitos Humanos da ONU foi dominado por países não democráticos e, muitos deles, ditatoriais.

Atualmente, doze das ditaduras que compõem o Conselho de Direitos Humanos punem a homossexualidade como um crime em seus países. Em quatro deles, a pena para uma pessoa LGBTQ+ é a morte. Assim sendo, não creio que seja possível usarmos as resoluções votadas por esse conselho como medidas de justiça.

O conselho também possui artigos fixos, obrigatórios em todas sessões oficiais ordinárias. O único país do mundo que é nominalmente lembrado é Israel, no artigo 7. Você acha realmente que Israel é o único país que deveria ser lembrado no conselho de Direitos Humanos, Duca? Você não acha que existem crimes contra a humanidade em outros lugares? Isso prova que, ao citar esse Conselho, você demonstra um profundo desconhecimento sobre quem são seus membros e como eles tratam sua própria população, como a Nigéria, que mutila mulheres, ou a Arábia Saudita e o Qatar, que assassinam gays publicamente. São esses os países cujo julgamento você está aprovando, quanto às complexas situações que Israel enfrenta diariamente com grupos terroristas? São neles em que você depositará sua confiança de justiça e liberdade para povos, valores que a própria ONU diz possuir em sua mais profunda essência?

Sobre a repressão aos ataques vindos de Gaza/do Hamas

A respeito dos protestos em Gaza que começaram há quase 1 ano: eles foram foram orquestrados e pagos pelo Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza, desde 2007 – após Israel ter se retirado unilateralmente do território e de, posteriormente, os membros do partido palestino Fatah, rival do Hamas, terem sido violentamente expulsos de Gaza.

Não sou eu quem está dizendo isso. São eles mesmos. O Hamas, um grupo terrorista e antissemita, que possui em sua carta de fundação a convocação da luta contra os Judeus, convocou milhares de palestinos, pagos com dinheiro público, para protestarem violentamente na fronteira internacionalmente reconhecida entre Gaza e Israel.

Muitos, queimaram pneus e cobriram os céus de fumaça tóxica. Dezenas deles tentaram invadir Israel, cortando as cercas de segurança, armados de facas e armas de fogo. Isso também não sou eu quem está contando, está em diversos vídeos publicados pelos próprios palestinos residentes em Gaza e até mesmo em páginas oficiais do Hamas.

Sobre “inocentes desarmados” mortos

Lamento imensamente por mortes de civis dos dois lados desse triste conflito, mas dizer que 189 manifestantes palestinos desarmados foram mortos em 2018 é uma mentira. A sua grande maioria não era manifestante e não estava desarmada. Nenhum tribunal internacional tampouco cogitou a hipótese de que isso pode se tratar de qualquer crime contra humanidade e, neste caso, você está deslegitimando o direito de Israel defender suas fronteiras contra invasões de pessoas armadas que possuíam apenas uma intenção: matar judeus.

Sobre o número de refugiados palestinos

Outro erro histórico que você disse, merece atenção redobrada. Não existem 8,15 milhões de palestinos refugiados. Existem 4,5 milhões, de acordo com agência para refugiados palestinos UNRWA. Diferente do mencionado na entrevista, os palestinos de Gaza e da Cisjordânia são cidadãos da Autoridade Nacional Palestina, e não refugiados. Você está chamando cidadãos palestinos em território controlado por palestinos de refugiados? Refugiados de quem? De onde?

Não obstante e já que seu interesse por deslocados a fez escrever o roteiro desta novela, é importante notar que a ONU possui duas agências de refugiados. A Acnur, agência responsável em ajudar e auxiliar todos os refugiados do mundo inteiro, fora os Palestinos. Os Palestinos possuem uma agência apenas para eles, a UNRWA. Um leigo no assunto, como você, provavelmente iria argumentar que os palestinos são a maior população de refugiados no mundo e por isso possuem uma agência apenas para eles.

Porém, Duca, em 1947, quando a partilha foi negada pelos países árabes e quando a guerra civil já instalada se transformou em uma invasão de 5 países árabes a Israel, causando a guerra de 1948 e o problema dos refugiados palestinos, os mesmos eram entre 500 e 700 mil pessoas. Somente na Europa, na mesma época, existiam 20 milhões de refugiados. Isso mesmo, 20 milhões. Em 1960, todos estavam instalados em novos lares e não possuíam mais o status de refugiados.

Todos, menos um grupo. Os palestinos. Você já se perguntou por quê? No Líbano, por exemplo, vivem 500 mil palestinos em 17 campos de refugiados cercados por muros e privados de participar da vida civil libanesa. Mais de 80% da população palestina no Líbano nasceu no Líbano, mas o país preferiu manter seus status de refugiado ao invés de permitir que se tornem cidadãos libaneses. Há 71 anos essas pessoas são privadas de estudar em universidades, comprar uma terra ou participar da vida pública libanesa. Isso sim, é um crime contra a humanidade. Existem também palestinos que foram a países que deram cidadania e dignidade a eles.

Assim como Israel fez com os 900 mil judeus expulsos dos países árabes, os EUA, Argentina, Chile, Brasil, Canadá e dezenas de outros países receberam refugiados palestinos que fugiram ou foram expulsos por causa da guerra árabe-israelense (guerra é caos e todos os países que lutaram guerras tiveram refugiados). Nesses países eles receberam o necessário para deixarem de ser refugiados, porém, diferentemente da Acnur, a UNRWA não retira o status de refugiado de um palestino que ganhou cidadania em outro país.

Caso ela/ele case e tenha filhos, seus filhos, seus netos, seus bisnetos, serão todos incluídos na lista da UNRWA, assim o número de 500 a 700 mil refugiados de 1948, se transformou em 4,5 milhões. Em suma, enquanto uma agência trabalha para diminuir o número de refugiados sob seus cuidados, a outra opera de modo a fazer o número de refugiados que representa aumentar geração após geração. Você já parou para pesquisar e ler a respeito dessa diferença de política entre a Acnur e a UNRWA?

Sobre a destruição de casas

Diferentemente do que você acusou, não existe uma prática de demolição de casas dentro de Israel. Em exceções, quando isso ocorre em alguma cidade israelense, deve-se à construção sem alvará e não possui qualquer ligação com credo, cor ou etnia da pessoa que infringiu a lei. Isso aconteceria aqui no Brasil ou em qualquer democracia funcional, onde o Estado de Direito é forte e eficaz. Na Cisjordânia, também em casos isolados, há a demolição de casas usadas por terroristas. Ao todo, foram 23 casas demolidas (todas pertencentes a terroristas condenados por crimes contra civis de Israel), no ano de 2016, na Cisjordânia. Não foram 1089, nesse mesmo período, como dito por você.

Sobre a idade penal em Israel

A idade penal em Israel é 12 anos (igual ou superior a estipulada em países como Inglaterra, Austrália, Estados Unidos e Nova Zelândia, por exemplo), assim, se uma criança de 14 joga uma pedra em um veículo em movimento, causando um acidente e ferindo ou até matando pessoas, essa criança será presa e julgada como adulto. Isso independentemente do fato de ela ser palestina, israelense, árabe ou judia. Parte da Cisjordânia está sob jurisdição israelense, em concordância com a Autoridade Palestina, após os Acordos de Oslo.

Caso um atentando seja feito dentro dessa zona, o exército ou a polícia de Israel tem absolutamente total legitimidade para prender os infratores. O futuro desse controle israelense terá que ser decidido entre os governos palestino e israelense para que um acordo de paz final seja feito e fronteiras definitivas sejam criadas. Israel não faz tortura de presos. Quem afirma isso está apenas espalhando fake news, algo comum nos dias de hoje. Israel é uma democracia liberal, com divisão de poderes e um sistema jurídico forte e independente.

Sobre o bloqueio marítimo

Continuando, Duca, o bloqueio a Gaza é apenas marítimo e não por terra. Outra inverdade que você disse na sua entrevista. A fronteira Keren Shalom, entre Gaza e Israel, é bem movimentada e por lá circulam toneladas de mercadorias e milhares de pessoas todas as semanas. Palestinos que não possuem antecedentes por participarem de ações terroristas ou pertencerem a grupos como o Hamas ou a Jihad Islâmica, entram em Israel para trabalhar ou para tratamentos médicos diariamente. Também não sou eu quem está dizendo, está em qualquer site sério que trata do conflito e do bloqueio marítimo a Gaza, e você também sempre pode visitar a região e ver com seus olhos a realidade.

Sobre sua omissão quanto ao Hamas

No caso do bloqueio marítimo, não me espanta que você não tenha citado o Hamas, o único e direto responsável pelo bloqueio marítimo a Gaza, instalado em 2007 após o grupo islâmico fundamentalista ter tomado o poder a força da Autoridade Palestina no enclave e ter feito 1.8 milhões de pessoas reféns de seus atos de terrorismo. Desde 2001, o Hamas já atirou mais de 25 mil foguetes em Israel, matando centenas de pessoas inocentes.
As três guerras que Israel lutou em Gaza, em 2009, 2012 e 2014 foram contra o Hamas e oriundas de lançamentos de foguetes, pequenos e grandes, contra cidades de Israel.

Fico perplexo que uma autora de uma novela da Globo não tenha a capacidade de saber de algo tão amplamente divulgado e de fácil acesso. Israel não implementou um bloqueio a Gaza por esporte, Duca. Israel implementou um bloqueio marítimo para o Hamas não ampliar seu arsenal com armas traficadas do Norte da África e do Irã. Esse bloqueio, inclusive, foi endossado pela Autoridade Palestina, em 2010, e considerado legal, de acordo com o Relatório Palmer, divulgado pela ONU, em 2011.

Sobre israelenses sob ataque

Pouco antes de você responder essa entrevista, Duca, o Hamas atirou um foguete em uma casa no Centro de Israel, destruindo-a completamente, ferindo sete civis, dois deles, bebês. Em resposta a essa violação da segurança de seus cidadãos e da sua soberania, Israel atacou alvos do Hamas em Gaza e ninguém foi ferido nesses ataques. Israel atacou instalações, bases e depósitos do grupo terrorista em mais de 50 alvos. 
Em suma, Duca, sua entrevista à Fepal contém, como provei na minha longa carta aberta em resposta a você, uma série de erros históricos, jargões prontos e superficiais e mentiras que são espalhadas mundo afora há alguns anos e pobre daqueles que as escutam e, em vez de fazer as devidas pesquisas e verificações, repetem como se fossem verdades absolutas. 

O conflito palestino-israelense é complexo e cheio de detalhes. Não há preto e branco, conforme sua entrevista tenta colocar. A paz, Duca, apenas virá quando o terrorismo proveniente de Gaza cessar, quando Israel for aceito em suas fronteiras internacionalmente reconhecidas e quando os dois governos de boa fé negociarem uma solução justa para os dois lados. Até lá, pessoas influentes como você, precisam ter mais cuidado ao escreverem novelas e darem entrevistas sobre temas que não dominam, pois o erro, a mentira e a fake news pode criar um sentimento ao contrário do que você diz proteger: a pacificação entre os povos. Entre os vencidos, na sua entrevista, está também a verdade.

Com a intenção de combater preconceitos e contribuir para a paz no Brasil e no mundo todo, por meio da educação, é que escrevo esta carta. 
Cordialmente,

André Lajst é Cientista político e diretor executivo da StandWithUs Brasil

Print Friendly, PDF & Email