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Im eshkachech Yerushalaim, tishkach yemini, tidabek lashoni lechiki.
Se eu me esquecer de Jerusalém, que perca a minha destreza e prenda-se a língua ao céu da boca. (Salmos, 137)

por Jacques Ribemboim – O reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel foi aprovado pelo congresso norte-americano em 1995. De lá para cá, todos os presidentes, democratas ou republicanos, defenderam publicamente a transferência da embaixada de Tel Aviv, embora não tenham implementado o que anunciavam. Em sua decisão recente, Donald Trump está sendo fiel ao discurso de campanha, causando espécie e alvoroço na mídia ocidental, que já se faz notória em sua sistemática oposição ao presidente.

Independentemente de sustos e pruridos no Novo Mundo, os israelitas consideram Jerusalém como sua capital desde os tempos do Rei David, quando da conquista aos jebuseus, vão-se três mil anos. Ali, seu filho Salomão fez erguer o Primeiro Templo, destruído por Nabucodonosor em 586 a.C. No exílio, os judeus choravam junto aos rios da Babilônia quando se lembravam de Sião. Com os persas, puderam retornar à terra, sendo dali novamente expulsos, desta vez pelos romanos, em 135 d.C., momento em que o imperador Adriano decide mudar o nome da Judeia para Philistea, evocando os filisteus, antigo povo da Cananéia e arqui-inimigo bíblico de Israel. Mas o país voltaria a se erguer, em 1948.

O nome da cidade em hebraico, Yerushalaim, aparece seiscentas e dezenove vezes na bíblia judaíca e pode ser derivado dos termos yeru, que significa “vejam”, e shalom, que quer dizer “paz”. Do ponto de vista semântico, seria algo como “visão da paz”. Existem, ainda, outras interpretações, como yir shalem, “cidade plena”, haja vista que leshalaim é o infinitivo do verbo “completar”. E avançando nos detalhes gramaticais da Torá, verifica-se a ocorrência do plural dobrado (incomum em outras línguas), no sentido de “dois” ou “dupla”, cuja desinência é áim, implicando a interpretação de yir-shaláim como “cidade de duas pazes”, entre Deus e homem.

Apesar da etimologia poética e pacifista, o histórico de Jerusalém nunca foi tranquilo. A cidade mudou de mãos pelo menos quarenta vezes até que, em 1947, durante o Mandato Britânico da Palestina (os ingleses a haviam tomado dos turcos otomanos), as Nações Unidas decidiram pela partilha da região, com a criação de dois estados, um, árabe, outro, judeu.

Acordou-se que Jerusalém seria internacionalizada. Mas tão logo os súditos de George se retiraram, árabes e judeus se apossaram da cidade, com a Jordânia ocupando a porção oriental e Israel ficando com a parte ocidental. Na Guerra dos Seis Dias, vinte anos depois, quando os líderes árabes propagavam jogar os judeus ao mar, aconteceu a vitória de Israel, conquistando a parte leste e unificando a cidade, permitindo, agora, que todos pudessem rezar livremente em seus locais sagrados (antes, enquanto pertencia à Jordânia, era proibido o acesso dos judeus).

Nos últimos cinquenta anos, Jerusalém cresceu e se modernizou. A cidade não se atém apenas ao quilômetro quadrado da Cidade Velha, onde estão o Muro das Lamentações, o Santo Sepulcro e a Mesquita de Omar. Em seus bairros estão a Universidade Hebraica, inaugurada em 1925 e uma das melhores do mundo; o Hospital Hadassa, referência em saúde e decorado com vitrais de Chagall; o Museu de Israel, com seus pergaminhos do Mar Morto; o Yad Vashem, monumento em memória aos mortos da Segunda Guerra; o Yaar Yerushalayim, um bosque replantado com seis milhões de árvores, representando os seis milhões de judeus assassinados no holocausto nazista. E, claro, ali estão a sede do executivo israelense, o parlamento (Knesset) e a Corte Suprema. Há, também, cinemas, teatros, shopping centers, escolas e centenas de restaurantes, hotéis, centros de estudos, parques, escritórios, enfim, tudo o que se espera de uma grande aglomeração urbana em nossos dias. Dos seus mais de setecentos mil moradores, cerca dois terços são judeus.

A decisão norte-americana é saudada por muitos. Espera-se que outros países façam o mesmo, sinalizando positivamente para a consolidação de um processo de paz. Até aqui, contudo, além dos Estados Unidos, apenas Costa Rica e El Salvador mantêm embaixadas na Cidade de David, com a República Tcheca tendendo a fazer o mesmo. A maioria dos países, porém, continua com suas representações diplomáticas em Tel Aviv, uma posição cômoda, mas que refrata uma importante reparação histórica. Infelizmente, as regras da conveniência não são as mesmas da justiça.

Jacques Ribemboim é escritor

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