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O tempo é medida de todas as coisas? Mais do que provável. E ainda que em ciência existam muito mais perguntas do que respostas, é quase consenso que ele comanda tudo. E até prova em contrário o principal responsável pela nossa Odisséia. E acredite você num tempo criado, ou na geração espontânea do Universo, ele é quem faz a ordenação dos teus dias.

Imaginem o tempo como um oráculo. Se ele fosse um sujeito sobre o que poderíamos perguntar? A idade do Universo? Se há alguém mais idoso do que ele? Se está ou não acompanhado pelo espaço? Pode ou não ser dissociado da coisa extensa? Quem é ele de verdade? Conhece a si mesmo? Faz meditação, introspecção, tem passatempos, respeitará alguma hierarquia? O que diria das sequencias revolucionárias? Quanto tempo para amadurecer uma democracia? As respostas podem demorar, e previsível, e alguém pode imaginar uma entidade mais atarefada? Afinal de contas vocês estarão entrevistando quem testemunhou o inicio e o fim. E ainda que ele não seja o Eterno ele teve experiência com a natureza humana. A diferença é aquela que enlouquece os físicos teóricos: pode haver algo que não tenha tido início? Que esteve desde todo sempre? Alguém que existe sem predecessores? De qualquer modo o tempo pode nos surpreender com uma declaração impulsiva:

— Vocês não perdem por esperar.

Sobre o futuro o tempo, prudentemente, deve guardar sigilo (não confundir com segredo de justiça, entidade muito enigmática em regiões tropicais). E já que o spoiler costuma não só estragar o final como encurtar a aprazível sensação de expectativa. Mas seria ele indiscreto a ponto de nos expor como ele mesmo se diverte. E apesar dos processos secretos que dizem estar sendo acumulados contra nós, o povo, aproveitemos enquanto as cortes ainda não proibiram especular. E o que perguntariamos caso ele aceitasse nos responder sobre os nossos dias. Sobre o Brasil, foi o que combinamos, não faremos perguntas políticas, já que neste campo até a cronologia juridica é duvidosa.

Poderia nos contar o que Greta faz para relaxar nas horas de folga? Quantas diárias os digníssimos guardiões da constituição gastam para xeretar seus nomes nas redes sociais? Quanto ocupam da vida a imensa legião que desperdiça seus prazos julgando os semelhantes? Como aproveitar as oportunidades generosamente concedidas pelo instante? Conheceremos um estado de paz não artificial? Enxergaremos um destino menos perturbador? A salvação é meso de caráter individual?

Evocando o velho Hipócrates voltaríamos ao seu primeiro aforismo: a vida é breve, a arte é longa, a ocasião fugidia, o juizo difícil. Porém é a brevidade que pode dilatar os instantes e é a arte que permite ampliar a imaginação. Se a ocasião escapa, é sua celeridade que pode comover e nos tornar mais alertas para o significativo no mundo, e será o juízo que se esquiva das dificuldades aquele que redimensiona. É isso que conta nas estações que passam e retornam para nos agregar através de elos geracionais e cósmicos. E, apreciemos ou não, é a consciência de uma efemeridade que paradoxalmente perdura, aquela que nos vincula numa única metafora: o tempo, portanto, é o único bem duradouro.

O tempo é a seiva da interação, centauro do Universo, unidade irretorquível. A única certeza do infindo despede-se de um ano com a convicção de que o vindouro será um presente.

Bom ano e Shana tová 5780

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