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Pragmatismo marca posição histórica do Brasil no Oriente Médio, afirmam analistas no final do ciclo “Israel-Mundo”.

Foto: Samuel Neuman
Foto: Samuel Neuman

“Três variáveis condicionam as relações do Brasil com israelenses e palestinos: 1) as relações Brasil-EUA; 2) a busca de uma política externa global; 3) a tradição diplomática brasileira e seu repertório permanente”, afirmou o professor da FGV Guilherme Casarões, na palestra que encerrou em 28 de outubro o ciclo “Israel e o Mundo”, em São Paulo, com o tema “Israel e Brasil e América Latina”. “Pragmatismo e busca de consenso multilateral” marcam a posição brasileira, resumiu o professor da UNESP Tullo Vigevani.

Ambos iniciaram sua exposição abordando os “lugares-comuns” sobre o tema, a saber: a América Latina (AL) se distancia das polêmicas Oriente Médio, e após o Choque do Petróleo, em 1974, passou a se guiar por imperativos econômicos e ideológicos. Os dois pesquisadores procuraram mostrar que não há uma posição comum coerente nem uma política externa linear da AL em relação a Israel e aos árabes. Eles periodizaram o estudo do tema em três fases: 1) 1947-1974: equidistância, com influência dos EUA; 2) 1974-1990: polarização, com fortalecimento pró-árabe; 3) 1990-2013: normalização com Israel e Autoridade Palestina – a partir de 2003, renovação do compromisso com a causa palestina.

Casarões abordou a posição brasileira na ONU, nas diversas resoluções sobre Israel, com destaque para o apoio brasileiro à Partilha da Palestina, em 1947, em reunião presidida pelo diplomata Oswaldo Aranha, e na votação que equiparou sionismo e racismo, em 1975. O analista procurou desvendar o processo decisório do governo brasileiro neste caso, mencionando a “irritação” do presidente Geisel com os EUA, por causa da política brasileira de energia atômica e de direitos humanos, e citando o diplomata brasileiro Sérgio Correia da Costa, segundo o qual, até o último dia a posição brasileira era de abstenção.

A partir de 1990, com o fim da Guerra Fria, houve alinhamento com os EUA dos governos Collor e Menem. Em 1991, toda a América Latina, com exceção de Cuba, votou pela revogação da resolução de 1975. Por outro lado, em 1993, o Brasil abriu o primeiro escritório da AutoridadePalestina, com a intenção de ser um “interlocutor diplomático de peso”, segundo Casarões. Para ilustrar o “pragmatismo e multilateralismo” que norteia a diplomacia brasileira, Vigevani citou o Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel, que começou a ser negociado em 2005, e as três reuniões daCúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), desde 2005.

De qualquer forma, com o governo do PT, a partir de 2003, o País passou a priorizar a cooperação Sul-Sul, com autonomia em relação aos EUA – posição também adotada nesse período por Argentina e Venezuela – e maior compromisso com a causa palestina. Nesse período, aliados tradicionais de Israel, como Costa Rica e El Salvador, se aproximaram dos palestinos. Em 2009, após o conflito em Gaza, Venezuela e Bolívia romperam relações com Israel.

Para Vigevani, no entanto, a diplomacia brasileira tem um “repertório permanente”, desde os anos 1970, que reitera o direito de Israel de existir em fronteiras seguras e o direito de os palestinos terem um Estado. Segundo ele, o papel ativo do Brasil no reconhecimento da Autoridade Palestina como Estado observador na ONU, em 2012, não muda a linha pragmática: “o reconhecimento da AP foi uma unanimidade internacional”. Ele lembrou a visita de Lula a Israel, em 2010, e observou que 85% do comércio de Israel com o Mercosul vem do Brasil – há acordos de transferência de tecnologia nos setores agrícola, segurança, defesa e alta tecnologia.

Vigevani citou o ex-cônsul de Israel em São Paulo, Ilan Sztulman, para observar que a reabertura do consulado, em 2010, “mostra a importância do Brasil para Israel”. O analista considera que a América Latina não merece a mesma atenção da diplomacia israelense, e a mudança em relação ao Brasil está relacionada ao papel crescente desempenhado pelo País no cenário internacional. Com as perspectivas econômicas não muito otimistas para o Brasil no futuro próximo, disse o professor, fica em aberto se Israel manterá essaaproximação.

Os analistas discordam quanto ao papel do Brasil no processo de paz entre israelenses e palestinos. Para Casarões, o Brasil não tem “alavanca política” para influenciar o processo e trata com “leniência” os dilemas israelenses com relação à segurança. Para Vigevani, a posição histórica de Israel é de aceitar apenas a mediação dos EUA, mas o Brasil tem “soft power” e reconhecimento internacional pela defesa do multilateralismo. Isso pode influenciar, “ainda que de forma pequena”, a formação de uma coalizão internacional que leve a um acordo.

O papel da diáspora judaica no processo de paz também foi abordado. Para Vigevani, as comunidades judaicas, “começando pelos EUA”, têm uma lógica de fidelidade a Israel que se tornou um objetivo em si, uma “lógica não política”, que não pondera para a resolução do conflito, pois “a política é a lógica da negociação, com concessões”. Certamente, “há elementos da história milenar dos judeus que explicam esta sensação de cerco e a solidariedade integral a Israel”. Mas “os cem anos de confronto entre judeus e árabes no Oriente Médio são uma experiência de falta da lógica política”.