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Ilustres governantes do Brasil chegaram a adentrar uma sinagoga, desde Dom Pedro II, que visitou algumas na Europa, até os atos do 27 de janeiro, prestigiado por todos os Presidentes da República, desde que foi instituido pela ONU em 2005 como Dia Internacional da Recordação do Holocausto.

O profundo capital simbólico da presença de Bolsonaro é altamente significativo, não só pelo próprio nome da rua da sinagoga, mas pela sua historia e tradições, intimamente ligadas ao perfil do credo e lutas do ilustre visitante.

Capelão Álvares da Silva é uma pequena rua de Copacabana próxima ao Metrô Siqueira Campos, abrigando não mais que uma meia dúzia de prédios, entre os quais a tradicional Sinagoga, orientada espiritualmente pelo Eminente Rabino Eliezer Stauber.

Poucos saberão quem foi o Capelão que dá o nome a rua, ainda mais porque ele não costuma ser lembrado pelo nome de batismo, Antonio Álvares da Silva, sendo mais conhecido como Frei Orlando (1913–1945), Patrono do SAREX – Serviço de Assistência Religiosa do Exercito Brasileiro.

Trata-se de uma ligação fantástica, quase cabalística, do Frei católico com a Sinagoga judaica, ele que desembarcou na Itália em 1944, como Capitão-Capelão Militar incorporado ao Regimento Tiradentes de São João d’El Rey. Pertencia a Ordem dos Frades Menores de São Francisco. Às vésperas da Tomada de Monte Castello, tombou atingido por disparo acidental de um partisan. Repousa eternamente no Monumento aos Mortos da 2ª. Guerra Mundial.

Outro episódio que conecta a sinagoga com uma historia de lutas ocorreu em fins de 1959, com a onda de pichações anti-semitas que assolou a Europa, pela primeira vez após a guerra e o infame Holocausto. As manifestações neo-nazistas que geraram manchetes na imprensa mundial não eram diferentes das que hoje lamentavelmente são corriqueiras, motivando a comunidade judaica a improvisar vigilias noturnas diante de sinagogas e instituições, até então inexistentes, por desnecessárias, ao contrário dos dias atuais.

O Bairro Peixoto na época era um lugar ermo, lembro como se fosse hoje das noites que passamos na porta da sinagoga recém-inaugurada com o grupo de voluntarios. Ainda havia muitos terrenos vazios, inclusive um bem extenso, onde hoje se situa o shopping center na Rua Figueiredo Magalhaes, proximo da sinagoga.

Felizmente o Brasil não foi maculado por aquela insanidade, e assim como Bolsonaro no dia de hoje, JK dedicou um carinho especial pelos compatriotas de fé judaica, visitando naquele Natal de 1959 o Lar dos Velhos do Rio Comprido, que abrigava sobreviventes do Holocausto.

O nobre gesto de JK foi agora renovado por Bolsonaro, desta vez acompanhado pelo Embaixador de Israel no Brasil, pelo Primeiro Ministro Bibi Netanyahu, de quem disse ser capitão como ele, e pelo eminente Rabino Eliezer Stauber. Na verdade todos os quatro são antigos militares, já que o Rabino foi Capelão de uma unidade blindada, e o embaixador é tenente-coronel da reserva, em um pais onde todos precisam vestir a farda.

De repente, uma comoção varreu o público que lotava completamente a sinagoga, esperando pacientemente há mais de 3 horas, desde que chegaram os primeiros da fila. A comitiva se faz presente, sob fortes aplausos e o coro Mito… Mito… a Comunidade Judaica se engalanava para receber Bolsonaro, em uma tarde memorável que entra para a historia das relações entre Brasil e Israel, desde aquele dia de 1947 em que Oswaldo Aranha bateu o martelo na ONU, declarando a Partilha da Palestina, e desde que Getulio recebeu em 1952 no Palacio Rio Negro em Petrópolis, as credenciais do General David Shaltiel, primeiro Embaixador de Israel no Brasil.

Ao subir à bimá, o palco onde se ergue o Aaron haKodesh, Armario Sagrado que abriga a Torá – Velho Testamento, diante do Premier Netanyahu e sua esposa Sara, falando aos seus irmãos na Sinagoga de Copacabana, Bolsonaro inaugurou uma nova era nas relações Brasil-Israel, que datam de apenas 70 anos. Mesmo para um povo cujo calendário já está em 5779, este foi um grande momento, pelo seu significado nos tempos atuais.

Que o Eterno acompanhe Bolsonaro em seus caminhos, que traga Ordem e Progresso, a paz, a prosperidade, a salvação, que nossa brava gente não conheça mais o sofrimento, a fome, vacas magras … que venha a redenção para o povo brasileiro, nesta terra abençoada em que chegamos com as caravelas de Cabral, e que recebeu a todos aqueles tangidos pela intolerância de terras sofridas, hoje tão brasileiros quanto qualquer outro.

Que as luzes da Torá iluminem Bolsonaro e sua Familia. Amém!

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.