Bandeiras que desafiaram os Nazistas: 74 anos da revolta do Gueto de...

Bandeiras que desafiaram os Nazistas: 74 anos da revolta do Gueto de Varsóvia

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No gueto não houve Seder em 19 de abril, e sim luta contra inimigo cruel. Apenas 30 mil judeus restavam. A resistência polonesa transmite a notícia ao mundo livre, sem resposta. Judeus sozinhos, lutando pela própria vida. Sob ordens de Himmler para liquidar o gueto, SS entram com blindados, lança-chamas, metralhadoras.

Jovens os fazem recuar, com pistolas e rifles contrabandeadas pelos túneis. Nazistas fogem em pânico, abandonando mortos e feridos, sangue fétido escorrendo pela sarjeta. O espírito dos defensores de Massada e Betar contra as mais poderosas legiões romanas inspirava os lutadores do Gueto. Vinte séculos depois, na Massada de Varsóvia, entraram para a história ao lado de Eleazar benYair e Shimon Bar-Kochba.

Hoje sabemos que não havia apenas uma, mas duas frentes: a ZOB Zydowska OrganizacjaBojowa – Organização Judaica Combatente, liderada por MordehaiAnilewicz, e a ZZW Zydowski Zwiazek Woskowy – União Militar Judaica, chefiada por Pawel Frenkel. Durante 27 dias, suas bandeiras tremularam altaneiras juntamente com a vermelho e branco da Polônia, visíveis em toda Varsóvia.

Único território livre na Europa dominada, sobre Mila 18 e Muranowska, as bandeiras prenunciavam a redenção do povo hebreu na Terra Santa, após 2 mil anos de Diáspora. A ZZW, mais preparada militarmente, possuía oficiais do exército polonês e jovens do Betar com treinamento militar no Irgun, quase todos mortos em combate. Após a derrocada do comunismo na Polônia foi possível recuperar a fantástica história não contada da ZZW.

Assim como o massacre de Katyn, também ocorreu um processo de negação e falsificação da verdade pela URSS, que assassinou milhares de oficiais poloneses lançando a culpa sobre os nazistas. Tanto Katyn quanto a ZZW foram encobertas pela república “popular” da Polônia até 1989. Da mesma forma, comunistas acusavam o Armja Krajowa – Exército Nacional sediado em Londres de “reacionário”, enquanto glorificavam apenas o Armja Ludowa – Exército do Povo.

Diante do inimigo comum, as duas organizações permaneceram separadas por diferenças ideológicas. A ZOB somente aceitava em seus quadros militantes da esquerda judaica. A ZZW admitia qualquer um. A ZOB era influenciada pelo Bund, que preferia a bandeira vermelha à azul. O abismo entre revisionistas e a esquerda jamais foi vencido.

Ao ficar claro que a ZOB e a ZZW não se renderiam, os nazistas enviaram reforços e artilharia pesada. No dia 16 de maio de 1943, o infame General SS Jurgen Stroop mandou dinamitar a Grande Sinagoga, simbolizando o fim do gueto. Com a derrota da Alemanha, Stropp fugiu mas foi capturado e enforcado na Polônia em 1951 por crimes hediondos contra a Humanidade, sádico antissemita que recebeu a cruz de ferro como prova de suas atrocidades.

Seu relatório para Himmler menciona a feroz resistência da ZZW na Praça Muranowska, resistindo heroicamente. Na prisão polonesa, confirmou que o próprio Reichsfuehrer Heinrich Himmler telefonou-lhe pessoalmente de Berlim ordenando que as bandeiras fossem baixadas a qualquer custo, e que as maiores baixas ocorreram na Praça Muranowska, Posto de Comando da ZZW, local das mais encarniçadas batalhas, sem sobreviventes para relatar a valentia e coragem dos jovens do Betar.

Ali tombou Pawel Frenkel, e com ele terminou a ZZW. A pátina do tempo cobriu esta página de ouro da História Judaica e da História Universal, comparavel à epopeia de Massada, à resistencia de Spartacus contra as legiões romanas, até que finalmente Moshe Arens, ex-ministro da Defesa de Israel, publicou em 2011 “Bandeiras sobre o gueto: a história que não foi contada”, resgatando aqueles heróis obscurecidos pela Polônia dominada por Moscou e pelos governos trabalhistas de Israel.

A final, mais uma vez o povo de Israel saiu vitorioso, com baixas imensas, 74 anos depois recordando o heroísmo daqueles bravos e desesperados. Do Gueto nada restou alem de 20 metros de muro, e extenso gramado diante do Monumento aos Combatentes, onde o portentoso Museu do Judaísmo Polonês foi inaugurado nos 70 anos do levante – 19 de abril de 2013, testemunho da eternidade de Israel. Amém!

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.