Assimilado, eu???

Assimilado, eu???

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por David Milstein – Muito se escreveu, e se escreve até hoje, sobre: QUEM É JUDEU??? Ninguém se lembrou de escrever um tratado sobre: QUEM É ASSIMILADO???

É aquele carinha que nasceu de ventre e família judia, fez brith-milá, bar-mitzvá, yeshivá… e todos os “ÁS” possíveis e hoje mora pacificamente num condomínio em Mogi das Cruzes com a Maria do Rosário e seus filhos Lucas, Matheus e Aparecida…

Ou é aquele sujeito com um jeitinho de indígena que carrega o sobrenome de Bentes, Benevides, Benchimol ou Benemond e não tem a menor culpa se o bisavô saiu de Casablanca ou Tanger em 1893 para Belém do Pará ou Manaus em busca de parnassá, de uma vida melhor e ainda insiste em permanecer judeu.

Assimilado é o gaúcho de Erechim, que na contramão da história amarra seu cavalo na porta da velha sinagoga de Madeira construída pelos pioneiros enviados pelo barão Hirsch e que coloca talit e tefilim sobre suas botas, bombacha e rebenque???

Ou será meu irmão Jader Pimentel, veterinário na cidade de Arcos no centro-oeste de Minas Gerais que lacrimejou quando dei de presente uma mezuzá e uma birkat-habait como incentivo prá que ele seguisse batalhando contra tudo e todos prá resgatar o que lhe foi injustamente roubado pelo Marquês de Pombal e sua Santa Inquisição.

Fiz tudo ao contrário do que reza o catecismo do Rabino Yossi.

Nasci onde a Divina Providencia me colocou. Sou um judeu tropical, nasci em 1940 na Barra Funda de todos o santos e orixás. Mas estive aos pés do Monte Sinai naquele Pacto Divino, aguardando a descida, e as ordens de Moshe Rabeinu.

Gan, jardim de infância, pré-primário, nem pensar. Muita bola de gude e carrinho de rolimã!!! Mas vibrei na Persia com Esther e Mordechai, e bebi até não reconhecer o cobrador do KKL no bat da minha filha!!!

Grupo Escolar Conselheiro Antônio Prado, foi quando me apaixonei pela primeira normalista.

Mas gravei, e segue gravado na memória, o som dos sinos da Igreja de S. Geraldo anunciando o final da segunda guerra, e o desfile dos pracinhas que assisti nos ombros do meu velho pai na Praça Marechal Deodoro.

Joguei muito futebol na várzea da Barra Funda, entrei de penetra no Cine São Pedro, e dei maçã bichada prá professora de Latim do Macedo Soares.

Mas, menino de tudo, filho caçula, colocava o peito prá fora na hora do Ma Nishtaná. Nosso seder era um espetáculo que os vizinhos “goim” a vila assistiam do janelão pelo lado de fora…

Cresci, tinha um mundo prá encarar e pais idosos prá cuidar.

Bons tempos de SENAI, 8 horas por dia, muita graxa, trem lotado e amigos prá toda vida. Mas o movimento juvenil judaico me transmitiu valores, histórias e ideais que mantenho até os dias de hoje.

Joguei muita sinuca no Bar do Seu Antônio, assisti neguinho fazendo tatuagem (AMOR DE MÃE) com agulha de costura e tinta nanquim, e aprendi a fazer samba com o pente (eu tinha cabelo) em porta de garagem. Mas desfilei altivo e orgulhoso pela tnuá no Iom Hatzmaut, e de tilboshet toquei timba para Golda Meir quando ela passou pelo Brasil em 1959. Minha intimidade com a percussão me levou para o Chinani da CIP.

Fui estudar Serviço Social na Católica, fui voluntario em favela e na Santa Casa. Moreino sertão das Alagoas e acabei virando marujo. Mas em 1967, chorei cada chaial caído, e beijei cada pedaço de chão reconquistado em nossa Jerusalém.

A gente não acerta sempre, casei com sefaradi.

Constituí uma linda família e há 48 incessantes anos, Esther, minha mulher, ilumina a nossa casa e nossas vidas, com as velas e a brachá de recepção do shabat, matando a sentida ausência do guefilte fish e do varenicks com húmus e kibe!!!

Mas, são 76 anos de vida que o Patrão lá em cima me proporcionou prá que eu seguisse caminhando por essa longa estrada fazendo o meu pagode, tomando a minha branquinha e dizendo em todos os sábados, AMÉM, no kadish puxado pelo Henrique Presidente.

Falo hebraico com fluência, mas não consigo rezar. Não consigo distinguir o Alef do Beit porque não podíamos ter um professor de bar-mitzvá e nunca frequentei escola judaica.

O Chabad transliterou as rezas.

Isso me tornou assimilado???

Pessach e sua bendita matzá me deixam 8 dias com prisão de ventre, entro em crise de hipoglicemia no jejum de kipur e ouço com atenção as eróticas prédicas do Yossi sobre os Rabinos de Chesfortzaied e Fortzxiskake sobre os quais nem adianta pesquisar.

Isso me torna mais judeu???

Em 1963 fiz um “divino contrabando” de livros religiosos para os judeus de Odessa, e segundo o Rabino Yossi, depois do episódio de Cuba, das pessoas que ele conhece, além de Eliahu Hanavi, sou um dos judeus que mais alegria proporcionou ao Rebe.

Isso me torna um cara menos assimilado???

O maior elogio que recebi neste caminho judaico-tupiniquim que tento percorrer, saiu de uma conversa lateral em Crown Heights depois que terminei o samba com o Marcelinho da Vai-Vai e uma palestra no Guimel Tamuz de 2010. O Rabino Malowani, no pé do ouvido do Rabino Yossi pergunta: “Yossi, me diz aonde eu posso conseguir prá mim um David Milstein???”

E você aí, se balançando, passando um baita calor debaixo do chapéu e do kapot ainda me chama de assimilado???

ASSIMILADO, EU???