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Ouro para filme sobre imigração em Singapura

por Rui Martins, direto de Locarno – O Leopardo de Ouro foi para o filme Uma Terra Imaginada, do realizador Zeo Siew Hua, de Singapura, sobre a situação naquele país dos trabalhadores imigrantes vindos dos países vizinhos.

Vai terminando o 71.Festival Internacional de Cinema de Locarno e aparecem algumas surpresas: nenhum prêmio para o longo filme de 14 horas, A Flor, de Mariano Llinás, e nenhum prêmio para Sibel, o filme sobre uma comunidade conservadora turca, do casal francoturco Guillaume Giovanetti e Çagla Zencirci, sobre intolerância, considerado um dos melhores filmes pela crítica.

O Leopardo de Ouro foi para o filme Uma Terra Imaginada, do realizador Zeo Siew Hua, de Singapura, sobre a situação naquele país dos trabalhadores imigrantes vindos dos países vizinhos. O Prêmio Especial do Júri foi para o filme choque da competição internacional – M, maiúsculo, de Yolande Zauberman, relatando casos de abusos sexuais e de pedofilia por religiosos e rabinos ortodoxos em Bnei Brak, Israel.

A Melhor Realização foi atribuída à chilena Domingas Sotomayor pelo filme, Tarde para Morrer Jovem, sobre uma comunidade perto de Santiago do Chile. Melhor Actriz foi para a romena Andra Guti, no filme Alice T., de Radu Muntean, no qual representa uma adolescente agressiva. Melhor Actor foi para o coreano do sul Ki Joobong, no filme de Hong Sangsoo, Hotel à Beira do Rio, um poeta conhecido que reencontra seus dois filhos adultos, ao se sentir próximo da morte.


Filme A Flor conquistou Locarno

Duas horas antes de serem anunciados os prêmios do Festival Internacional de Cinema de Locarno, uma coisa é certa, o filme argentino A Flor, de Mariano Llinás, foi o filme mais comentado, mais visto, mais amado ou mais detestado, destes dez dias..

Primeiro por sua duração:14 horas, com projeções todas as manhãs. Um filme longo pode se tornar penoso, pode ser o sofrimento de um pequeno número de aficionados dos chamados filmes de autor. Porém, é fácil saber se tem penetração no público: basta se olhar na sala. Está cheia? ou tem meia-dúzia de gatos pingados?

A Flor era um exceção, porque em princípio não se seleciona filme longo para a competição, pois vira um quebra-cabeça a programação da exibição. Porém, o diretor do Festival, deixando Locarno para dirigir Berlim, tinha ampla liberdade de movimento. E aceitou. Disse mesmo na coletiva em julho com a crítica, ser um filme destinado a ficar na história do cinema, a imprimir sua presença.

Outra exceção foi a de se reservar uma grande sala, todas as manhãs, para projeção de A Flor, no mesmo horário de um outro filme em competição, forçando-se os jornalistas a tumultuarem suas agendas. Como havia 8, projeções de A Flor, cada uma com hora e meia ou duas horas de duração, muitos críticos decidiam ver pelo menos duas delas.

A coisa complicava porque A Flor não é um seriado ou telenovela. As histórias começam mas não terminam e, pior, não continuam na próxima projeção. Cada história tem vida própria, a maioria mostram as quatro belas mulheres envolvidas, principalmente em espionagens. Em síntese, cada dia uma surpresa ou atração. Sem cansar ou dar sono porque A Flor conta as histórias de maneira diferente, é esse seu forte. E a música e a fotografia, e as tomadas nos prendem.

Alguns falam em um toque godardiano, é verdade, pode ser, mesmo porque, depois do filme, como antigamente, se procura interpretar isto ou aquilo mostrado no filme. Não é um filme que se injeta no espectador submisso. Ele é diferente, mas dizer ser godardiano seria restringí-lo, ele tem de tudo que o cinema já fez de bom. E a cada dia de projeção se espera qual será o novo menu, a nova trama, a nova receita.

A outra novidade é a de se misturar a crítica com o público. O cinema fica cheio, sai pouca gente durante a projeção, e há aplausos. Talvez A Flor não seja o melhor filme do Festival de Locarno, mas é o mais diferente. E é claro, depois de A Flor, os festivais não poderão mais exigir filmes de duas horas no máximo.

E a música? Desde ontem. o último capítulo, quando a maior parte do filme era uma homenagem ao cinema mudo, num silêncio total, ficou tocando na minha cabeça a música de fundo dos letreiros finais, as contribuições ao filme em termos de atores, produtores e tudo mais. E essa música que cola nos ouvidos, sequer está gravada, me confessa Mariano Llinás.

Algo de novo no cinema? talvez nem tanto porque a base é a mesma, porém uma nova utilização dos recursos até agora utilizados em cinema. Mariano Llinás é criativo, original, inova, amplia nossa visão, nos oferece algo inteligente e por isso a maioria adorou A Flor, porque sai daquele prato batido do feijão com arroz à macarronada.


A Sedução da Carne, de Bressane

Julio Bressane, director, Seducao da Carne, Signs of Life

A sedução da carne pode levar a um complemento da alimentação, mas também à destruição, como enfatizou Bressane, em conversa com os espectadores, depois da apresentação de seu filme surrealista Sedução da Carne, na mostra paralela Sinais de Vida, do Festival Internacional de Cinema de Locarno. No Brasil, para se chegar aos rebanhos bovinos se destroem florestas, pratica-se a monocultura da soja e se interrompem mesmo os ciclos das águas, disse ele sobre o aspecto literal da carne.
Por Rui Martins, em Locarno convidado pelo Festival Internacional:

Nem todos entendem ou gostam dos filmes de Bressane, mas existem grandes apreciadores. A prova foram os aplausos insistentes quando o cineasta apareceu no cine Kursal, em Locarno, na mostra Sinais de Vida, para responder às perguntas de espectadores, logo após a exibição do filme.

A personagem do filme Sedução da Carne é Siloé, nome inspirado de uma antiga nascente de água em Jerusalém, conhecida nos Evangelhos por ter lavado nela seus olhos, retirando o barro com saliva, um cego curado por Jesus. Siloé costuma falar com seu papagaio e conta ser viúva há três anos. Antes, havia viajado muito com seu marido e as paisagens e imagens mostradas no filme Sedução da Carne são dos lugares por onde ela viajou.

Ao lado dela, há sempre um prato com filés de carne crua. O filme se torna surrealista como os do espanhol Luiz Buñuel, quando pedaços de carne passam a se mover como se fossem vivos. A relação de Siloé com os pedaços de carne é erótica, ela lambe um pedaço no qual há uma orifício, enquanto outro pedaço vivo de carne crua desliza pelas suas pernas em direção à entre coxa, sobre seu sexo, coberto pela saia, permitindo-lhe se masturbar. Na cena final, Siloé está deitada nua sobre as costas com largos bifes sobre seus seios, coxas e púbis.

Vegetariano, mas não propagandista dessa opção alimentar, Bressane mostra algumas curtas cenas de abate de animais e sangria, que lembram as dos movimento antiespecista veganista. Logo depois da exibição do seu filme, Bressane aproveitou para denunciar a destruição que se continua fazendo no Brasil das florestas para o plantio da soja, isso se refletindo no escasseamento da água e das chuvas, além do envenenamento alimentar provocado pelo excesso de agrotóxicos nas plantações.

Júlio Bressane foi a seguir para Sils Maria, na Suíça, apresentar seu filme sobre a presença de Nietzche naquela cidade.


A presença portuguesa em Locarno

A presença de filmes e pessoas ligadas ao cinema português é marcante no Festival Internacional de Cinema Locarno. Fazemos uma rápida relação.

A realizadora Marta Mateus

Está no júri das curtas de Locarno, Marta Mateus, que teve uma experiência de atriz como Odete, filme do mesmo nome de João Pedro Rodrigues. Como realizadora, fez Farpões Baldios, curta-metragem premiada, em julho do ano passado, com o Grande Premio Internacional no Festival do Curtas de Vila Conde.

Esteve também na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, no ano passado.
Farpões Baldios, fábula sobre um Portugal rural em que se cruzam velhos e novos, o filme, de acordo com a ata do júri, pertence a “uma linhagem de obras onde a infância desbloqueia os sofrimentos, os erros e as virtualidades do passado, tradição que devemos, entre outros, a Manoel de Oliveira, a Antonio Reis, Margarida Cordeiro e Teresa Vilaverde.”

O realizador Marco Amaral

Realizador do curta Três Anos Depois – Uma mulher, com o cabelo ao vento, vê um grande clarão no escuro da noite. O que é que ela teme? Porque desvia o olhar? Marco Amaral volta a concentrar-se numa narrativa muito concisa e precisa, procurando mostrar como os espaços parecem caracterizar as personagens: desolados, perdidos, incompreendidos. Entre aquela mulher e a casa onde está, encontra-se uma criança e outra mulher mais velha. Parecem formar uma família, mas a instabilidade e o silêncio prolongam um sofrimento escondido.

O filme conta o encontro de mãe com seu filho João, que ela abandonara e deixara com a avó, e sua tentativa de reconquistar o rapaz. Para tanto, leva consigo uma bola de futebol, mas João nesses três anos deixara de gostar de jogar futebol.

Marco Amaral quis saber com seu filme se, no momento do retorno da mãe Ana, ela ainda é considerada como mãe por seu filho que, abandonado com cerca de três anos, tem agora por volta de seis. Não lhe interessa as questões legais mas simplesmente as reações afetivas. Há também na curta a figura de uma cão desaparecido, Golias, que teria assim ficado sem o afeto do seu mestre, o menino João, como João ficara sem o carinho de sua mãe.

Dídio Pestana e Sobre Tudo Sobre NadaAntes de ser realizador, Dídio Pestana é músico e compositor com Gonçalo Tocha com o qual forma o grupo TochaPestana. Os TochaPestana editaram Música Moderna, o primeiro álbum, em 2014, dez anos depois da residência artística em Alcobaça. Sobre Tudo Sobre Nada, primeira longa de Dídio Pestana, colaborador habitual de Gonçalo Tocha ou Filipa César, está na mostra paralela Sinais de Vida.

O curta-metragem Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, de Eugène Green, integra a competição da secção Signs of Life da 71.ª edição do Festival de Locarno. Como Fernando Pessoa Salvou Portugal estreou antes em Portugal, no dia 22 de Julho, no Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. O filme é uma coprodução entre França, Bélgica e Portugal e tem a duração de 28 minutos.

O curta-metragem é protagonizada por Carloto Cotta, Manuel Mozos, Diogo Dória, Alexandro Pierroni Calado, Ricardo Gross, Mia Tomé e o próprio Eugêne Green. A narrativa é baseada no episódio do slogan que Fernando Pessoa criou para a Coca-Cola, no caso a Coca-Louca (“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”), e na rocambolesca proibição da bebida que se seguiu.

Rui Martins está em Locarno convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

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