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Eu não pude acreditar quando ouvi a voz dele proclamando em voz alta, quase cantando, enquanto dirigia a carroça puxada por dois burros, propondo-se a comprar coisas velhas. Uma tradicional propaganda de vendedor em ídiche, só que, desta vez, o carroceiro era árabe.

As pessoas já o conheciam, e ele ia parando de tantas em tantas casas para receber coisas de que as pessoas queriam se desfazer, desde quinquilharias e velhos eletrodomésticos até móveis usados. Pagava o preço, ninguém discutia. Às vezes ele recebia mercadoria grátis, bens que as pessoas se desfaziam e deixavam na calçada em frente às suas residências, à disposição de quem quisesse levá-las.

Lembrei-me então de que certa vez, numa rua lateral perto do edifício do meu escritório, me deparei com algo inusitado em plena Tel Aviv moderna: uma loja que vende livros usados. Um verdadeiro “sebo”.

Para quem não sabe, sebo era a denominação que se dava (não sei se ainda hoje existe) para certas lojinhas que vendiam livros usados em São Paulo. Se não me falha a memória, havia uma na rua 15 de Novembro, onde nós, estudantes, íamos folhear, examinar e às vezes comprar baratíssimos livros, algum romance usado ou até um livro didático para nossos estudos universitários.

Outro dia, passando pelo sebo tel-avivense, entrei e fui dar uma olhada para recordar os velhos tempos. Para minha enorme surpresa, me deparei com um livro, um calhamaço de 600 páginas escrito em hebraico nada mais, nada menos pelo Eliahu (Elias) Lipiner, publicado pela Editora Magnes, da Universidade de Jerusalém, com um subtítulo em Inglês: “The Metaphysics of the Hebrew Alphabet”.

Por alguns instantes, voltei ao meu passado. No meu segundo ano primário no Colégio Renascença, o Elias Lipiner foi meu professor de ídiche. Já adulto, estudante de Direito, fui seu estagiário em seu escritório de advocacia, na Rua Barão de Paranacapiapava, em São Paulo. Havia então poucos advogados judeus, e ele era muito procurado.

Anos mais tarde fiz minha Aliá e revalidei meu título para exercer a profissão. Decorridos um par de anos, para minha enorme surpresa, ele aparece e me informa que também fez sua Aliá. Não tenho a pretensão de dizer que fui seu mentor, como um dia ele foi o meu, mas pude lhe dar as coordenadas. Uma vez que dominava perfeitamente o hebraico, ele pode em pouco tempo assimilar todo o material jurídico israelense resumido que serviam aos estudantes que iriam prestar o exame da Ordem dos Advogados de Israel.

Não é preciso dizer que ele foi aprovado incontinente. Resultado: passamos a trabalhar juntos. Hoje ele está no Oriente Eterno, provavelmente em companhia de minha mãe, sua irmã.

Há uma sensação de que, no mundo inteiro, algo se está movendo, às vezes numa vã tentativa de se salvar das Alte Zachen, das teorias e conceitos superados, das políticas do tempo do Onça, de uma ONU anacrônica. Um mundo em que toda a tecnologia de ponta ainda chafurda na lama da ignorância, do ódio, dos assassinatos, terrorismo e de guerras localizadas.

Aqui em Israel, cantamos o “Hatikva”, o hino nacional, que significa “A Esperança”. Ela é inerente ao Povo Judeu, sempre na expectativa de dias melhores, rezando pela paz e a segurança, sua e de todos os outros povos do mundo, na esperança de uma paz-shalom bíblica universal. Um sonho milenar.

O que impede o avanço para um mundo melhor é uma moderna Anarquia, em seu sentido pejorativo, sem lei, que universalmente ameaça a paz e a segurança dos povos, com uma epidemia de homens suicidas e carros-bombas, e um terrorismo que se alastra, intratável com qualquer remédio.
Enquanto houver pensadores, filósofos, escritores e vendedores árabes de Alte Zachen em Tel Aviv, sempre haverá uma esperança.

Nota: Em vernáculo, alte zachen refere-se a coisas usadas.

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