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Quem não ouviu ainda a expressão “ficaram a ver navios”?

Corria o ano de 1496. Havia chegado março. Num dia frio, nublado e triste, diante do decreto de Dom Manuel, o rei, nenhum judeu poderia continuar vivendo em Portugal. Ou se convertiam ou, apenas pelo porto de Lisboa, deviam deixar o país.

Não poderiam sair a pé pela fronteira com a Espanha, nem de qualquer outra maneira.

Foi assim que 20 mil judeus de todo Portugal, que não queriam se converter e sim continuar com a fé de Moisés, no dia 5 de março de 1496, se reuniram na beira d’água, na esplanada do Porto de Lisboa, prontos para deixar o país nos barcos de Dom Manoel.

E nada de chegarem os navios. E o tempo ia passando. E nenhum barco aparecia.

Eis que de repente, chegaram os padres dominicanos com tonéis de água benta que jogaram à força sobre os judeus agrupados naquela praça, os convertendo contra a vontade.

Imediatamente, os judeus entenderam que jamais houvera barcos para tirá-los de Portugal. O que aconteceu na realidade foi uma conversão grupal forçada. Um estratagema do rei que não queria ficar sem os judeus mas os queria converter, o que fez, pegando-os desprevenidos.

Daí a expressão: “Ficaram a ver navios”!

Esta e tantas outras histórias que a partir de hoje, começo a contar, emolduram o passado das famílias dos milhões de judeus emergentes, chamados de Bnei Anussim, os Filhos dos Forçados.

Fica claro, para quem entra em contato com a história das conversões forçadas, das perseguições aos judeus da Península Ibérica, das expulsões, da Inquisição, que tudo isto, ocorrido desde a idade média, até os anos 1800, no século XIX, foi tão grave, tão predatório, tão criminoso quanto o Holocausto e durou cerca de 400 anos.

Isto significa que a perda de identidade, de bens, de propriedades e da própria vida que atingiu milhões de famílias, criou um vazio incalculável ao povo judeu, diminuindo-o e empobrecendo-o de forma impossível de ser recuperada.

Judeus que sobreviveram a tantas barbaridades, em todo o mundo, que hoje vivem em tantos países e que conseguiram restaurar Israel no Oriente Médio ao invés de repudiar aqueles que querem resgatar a identidade dos antepassados forçados a abandoná-la, devem tratar os irmãos que voltam, exatamente como se trata alguém muito querido da família que se perdeu no tempo e que está de novo, chegando em casa!

Sejam muito bem-vindos, meus queridos irmãos, Bnei Anussim!

Aqueles de nós que não os aceitam, certamente não conhecem a História, por isso ainda não entenderam quem são vocês e consequentemente não lhes dão valor.

Em breve, contra todos os “dom manoéis” que ainda vicejarem por aí, vocês vencerão.

Os navios estão chegando.

Vocês não estão sós.

Recebam o nosso abraço carinhoso, um beijo no coração e as melhores boas vindas.

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