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Ato criminoso que gerou revolta em todo o Brasil e teve repercussão internacional, o cruel homicídio contra Marielle Franco serviu como reflexão da atual situação política, econômica e social do país por parte de diversos setores da sociedade. “Crime bárbaro e com elementos de assassinato feito sob encomenda, foi como a gota d’água. E isso gerou em toda a população, quase sem exceção, um sentimento de revolta”, afirma o Professor Doutor Rabino Samy Pinto.

Diante de tantos pontos de vista, o Rabino Samy compartilha suas impressões sobre as questões levantadas diante deste debate. Para ele, o crime contra uma mulher, negra, batalhadora, pensadora e que representava alguns grupos desfavorecidos da sociedade brasileira incorpora o estado de crise em que o país se encontra hoje. Porém, para o Rabino Samy, é preciso deixar claro que usar esse assassinato de forma política indevida pode agravar ainda mais a situação da segurança no país.

“Destaco duas percepções que podemos ter diante desse acontecimento: a questão da total insegurança em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e, por outro lado, o fato de que existe um entendimento da comunidade em geral de que a polícia não é bem-vinda. O que está em jogo hoje é a segurança, e este assassinato evidencia isso”, explica o Rabino.

A INSEGURANÇA

Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que foram 2.900 mortes no Rio de Janeiro entre janeiro e maio de 2017. Dessas 2.900 mortes, 154 foram causados pela polícia. Os mesmos dados ainda apontam que, nesse período, 134 policiais também foram mortos. Além disso, 25% dos homicídios ocorrem nas favelas, enquanto 75% são registrados em outros bairros, reforçando o estado geral de violência. “Para alguns cidadãos, esses números sugerem que é preciso parar com a atuação da polícia, porém, fazer isso é deixar então os outros 2.700 mortos sem uma resposta, sem uma ação”, diz o Rabino.

“Há setores da sociedade que questionam a intensificação da ação da polícia. Ora, se existe um crime fazendo 2.900 mortos em cinco meses, quem pode restaurar a segurança pública da cidade senão os órgãos competentes, representados pela polícia ou até mesmo pelo exército?”. Assim, segundo o Rabino, ao mesmo tempo em que há uma desconfiança na qualidade da polícia e na idoneidade dos policiais, o governo deveria investir no trabalho deles para que a segurança seja reestabelecida, oferecendo, principalmente, melhores salários e treinamento para que não entrem no jogo da corrupção e outras condutas não éticas.

“A população, no geral, tem medo da polícia, sendo que uma relação afetiva deveria ser estabelecida. Hoje, ninguém dá bom dia para um policial”, comenta, “mas é importante dizer que estamos em um momento crítico, que deve contar com a polícia e o exército nas ruas, com treinamento e conduta corretos, para que combatam o tráfico e as milícias”.

CRISE DE CONFIANÇA

Além da crise da segurança, existe a crise da confiança na polícia e no exército, e uma crise econômica e política. Para Samy, todos estes fatores são agravantes do estado atual das cidades brasileiras. “Para compreender a gravidade da situação, vale lembrar que dos sete governadores eleitos no Rio de Janeiro desde a década de 1980, quase todos têm problemas com a justiça, sem contar os dois que já estão presos! Além de conviver com a violência das milícias, do tráfico e do crime organizado, a população não tem mais confiança alguma no poder público”.

Por fim, Samy acredita que a mudança também está em cada um de nós, por isso todos devem fazer a sua parte para diminuir a desigualdade, ao invés de deixar apenas nas mãos da administração pública. “O Antigo Testamento da Bíblia já dizia que o mundo nunca deixará de ter mendigos, sugerindo que cada um abra sua mão para um irmão desfavorecido. A injustiça social não é tarefa só do governo, a injustiça social é tarefa de cada um de nós”, diz.

Há outra mensagem importante que o Rabino acredita calhar com a situação. “Anne Frank, uma menina judia perseguida e morta pelo holocausto nazista, afirmou em seu diário que aquele que é feliz espalha felicidade e aquele que teima na infelicidade perde o equilíbrio e a confiança, e perde-se uma vida. Então nós não podemos instalar um clima de infelicidade, desconfiança e desequilíbrio, por que ao fazer isso, estamos perdendo ainda mais as nossas vidas. O Brasil precisa explorar com urgência a sua riqueza e sabedoria, porque a pobreza e a idiotice já passaram dos limites”, finaliza.

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