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No auge das demandas binárias de “golpe militar” e “abaixo os golpistas” escrevi algo como “ninguém quer golpe, basta oposição”.

Pois é, ela, a oposição, este alicerce de um regime democrático sem o qual não se governa uma República, praticamente inexistiu. Algo um tanto inédito na história das democracias, durante largo período de tempo tivemos grosso modo, situação e sócios minoritários da situação. Pois, à revelia do poder representativo, essa lacuna foi enfim detectada pelas ruas. Aos poucos cresceu até chegarmos às manifestações de 2013 e pularmos às mega manifestações — com aproximadamente 10 milhões de pessoas que foram pacificamente mostrar um não — próximas à época do Impeachment da hoje candidata derrotada à vaga do Senado Federal por Minas Gerais.

Decerto Bolsonaro, imantou este sentimento coletivo, mas receberá muito mais votos dos antipetistas, do que de seus simpatizantes confessos. Se realmente deseja governabilidade ela lhe exigirá compreender esse espírito e civilizar-se quando se trata de temas críticos como “defesa da tortura”(sic), meio ambiente e proteção às minorias.

Destarte, é também fato que precisamos ir além do reducionismo do antipetismo para lutar contra as novas ameaças que virão daqueles que permanecerem seduzidos pelo autoritarismo e pela tentação nostálgica de totalitarismo. Será preciso compreender que a aversão ao partido dos trabalhadores transcende a corrupção. A crescente repulsa está muito mais no campo de uma rebelião contra uma tutela descabida. A crença de uma elite intelectual partidária e sectária que imaginou poder ditar o comportamento das massas fermentou uma insurreição não prevista, e, só agora se dão conta, de difícil controle. A velada ou explicita busca de monitoramento dos costumes sociais, disfarçada de “controle social” e “regulamentação da imprensa” foi explicitada sem a menor cerimônia neste último episódio das acusações capitaneadas pela matéria alardeada por um jornal de São Paulo. A sugestão que os signatários de manifestos pela democracia fizeram ao judiciário de banir as comunicações eletrônicas do Whatsapp, contém uma auto evidencia constrangedora para aqueles que rubricaram documentos a favor da livre expressão.

As redes, tem sido apenas o “escape” psiquico à enorme pressão exercida por esta legislação de caráter moralista. Um moralismo mimético, usando como invólucro o padrão cultural ideológico que tem sido exercido através da hegemonia nas cátedras e no domínio do poder.

Nem a vituperada classe média, nem o achincalhado senso comum aceitaram assistir suas vidas privadas sendo regulamentadas por padrões que rejeitavam ou simplesmente não lhes era familiar. Com um arcabouço ditado pelo suposto progressismo, não foram só os conservadores que ficaram escandalizados. O próprio núcleo duro da sociedade composto por enorme variedade de tendencias pessoais e políticas foi tocado negativamente por uma invasão de privacidade jamais consentida. A facilidade arrogante com que alguns falsos consensos, pois jamais acordados, tentavam ser impostos aos cidadãos comuns foi uma outra semente, que, germinada, também ajuda a explicar a exaustão das pessoas ao padrão petista de governar.

A verdade é que a sociedade está fazendo o papel de uma oposição que — com raríssimas exceções — eximiu-se de seu papel nos últimos 13 anos.

Somente quando o combate aos desvios de função se tornaram mais frequentes, e o assombroso volume de recursos desviados apareceu à superficie e explodiu na imprensa, é que o tema da corrupção ganhou relevância na agenda das camadas mais populares. As condenações judiciais vieram e foi neste ponto que o processo de impeachment alcançou seu bem sucedido desfecho.

Subsequentemente, as agências internacionais foram instrumentalizadas para reiteradamente noticiar o “golpe” aqui e no exterior com amplos prejuízos para a imagem do País, que, por sua vez, se traduziram em mais dificuldades financeiras que se somaram as pré-existentes. Juntem a isso os 14 milhões de desempregados, a violência sem precedentes e a desindustrialização em marcha, formaram um potente conjunto de fatores que funcionou como comprovação empírica do que antes era apenas uma teoria conspiratória: quanto pior melhor.

Portanto, o grande fato novo destas eleições é o surgimento espontâneo de uma oposição substituta que agora opera ao largo das instituições. Oposição difusa, porém direcionada contra o establishment e seu hegemonismo. E agora a resistência transcendeu a voz amordaçada das ruas. Passou a atender uma sonoridade que ganha corpo a cada nova detecção de arbitrariedade e a cada manobra excusa visando torpedear a democracia.

A voz, antes rouca, agora grita em alto e bom som:

isso tudo já tivemos: nunca mais.

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