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por Paulo Rosenbaum – Semana passada pesquisadores nos EUA conseguiram produzir armas de verdade usando impressoras 3D. Um só tiro. A novidade deve aportar logo mais por aqui e, como já é tradição em alguns países, também poderemos presentear crianças artefatos bélicos.

A menina que abraçou o pai com a coragem dos que não calculam tornou-se escudo para a bala. Morreu, o assassino foi solto, depois de se apresentar à Justiça com a versão de legítima defesa. Que nada. Todos testemunharam os fatos no vídeo que o assassino entregou à polícia. Foi a sangue frio.

Meninas e meninos hoje são alvos preferenciais. A sociedade de adultos não só deixou de proteger as crianças, deliberadamente as expõe. Assim, na terra de ninguém, basta estar abaixo dos 18 para sair premiado com o bônus antecipado de impunidade. A minoridade tornou-se álibi automático para o crime. O que diz o Estado? Tergiversa, enrola, ludibria, habilidades que esta administração sabe usar como ninguém. Disseram que precisavam “equacionar isso para a Copa”. Zero de espanto!

Os adultos não só deixaram de proteger as crianças, deliberadamente as expõem
O problema de autoridade tornou-se evidente e fornece pistas importantes para matar a charada: após a ditadura militar, políticos governistas encaram criminosos como vítimas do sistema. Na prática, isso significa endosso político para certos tipos de delito. Em outras palavras, livre interpretação do que conhecemos como transgressão e um convite à anomia.

Como a falta de segurança atinge todas as faixas sociais — especialmente as que não têm esquadrões paramilitares à disposição — e não há mais pílulas para dourar, o governo federal agora culpa entidades abstratas. Para esta cúpula, mulheres molestadas e violentadas, gente executada, agredida e mutilada são estatísticas e acidentes de percurso das injustiças sociais históricas acumuladas. Quando muito, fatalidades.

A deliberada omissão do Estado enseja depressão social coletiva e pediria uma rebelião organizada. Com certeza, mereceria resposta nas urnas, mas isso também não acontecerá. Como sempre, no lugar de escárnio e protestos, seguimos calados para tocar nossas vidinhas privadas.

Há muito mais do que mazelas sociais, distúrbios de personalidade ou perturbações psicóticas no incremento da violência que enfrentamos. Apesar da situação de emergência, o diagnóstico requer tolerância, não linchamentos sumários ou pena de morte já. Em meio à calamidade emocional sem fronteiras que nos atinge, só podemos constatar a presença de um mal-estar difuso e inominável que se enraíza na cultura.

Por sua vez, crianças estão sendo pressionadas a não viverem experiências próprias de suas faixas etárias, e há uma tendência, inclusive acadêmica, para encarar abreviações da infância como “naturais”, e “frutos da pós-modernidade”. Desculpas, é o que são. Nada justifica que pedagogos (ainda a minoria) cedam às pressões do mercado e achem adequado que crianças sejam alfabetizadas aos 3, se preparem para aulas de computação aos 4 para serem bilíngues aos 5.

Crianças estão sendo pressionadas a não viverem experiências próprias de suas faixas etárias.

O fato é que somos pressionados, e pressionamos por rendimento, trabalho duro, performance, sucesso e esperteza. Demandamos exatidão e objetividade. Coagimos crianças para terem autonomia sem perceber o insanável custo destas cobranças: perverter as feições próprias da infância. Além disso, fraquejamos nos exemplos. Os resultados estão aí. Famílias disfuncionais, e epidemia de drogas. Nitidamente, como mostra o contexto, não é caso de polícia.

Talvez, num futuro remoto, descubramos que simplesmente prolongar a infância poderia ser melhor para a saúde individual e coletiva. A partição da vida entre lúdica e séria, prazerosa e realista, pode ser só invenção de uma sociedade que não consegue experimentar diversão sem incomodar os demais. E se considerássemos que crescer só faz sentido se levarmos a vida na brincadeira?

No momento, a única classe que insiste no jogo sem regras, praticado contra as vidas alheias, é a dos políticos. Então, nobres colegas, façam-nos um favor: cresçam e desapareçam!

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