A Ellis Island Argentina – por Israel Blajberg
Através de Ellis Island, ilha vizinha a Estatua da Liberdade em Nova Iorque, milhões de imigrantes chegaram da Europa ao longo das decadas, enquanto o vapor foi o meio predominante de transporte intercontinental. Com o advento do avião e o fim das grandes imigrações, Ellis Island virou museu. Muitos paises tiveram portos de entrada similares com as Hospedarias de Imigrantes, onde os recém –chegados passavam pelos controles alfandegários e sanitários.
Alguns viraram museus da imigração, como Halifax no Canadá, a Hospedaria do Brás em São Paulo, onde os imigrantes chegavam de trem após o desembarque em Santos, e a Hospedaria em Buenos Aires, próximo ao Buque Bus e a Puerto Madero. Outros aguardam ainda que as autoridades se interessem, como a Ilha das Flores no Rio de Janeiro, parcialmente preservada, que hoje é uma base dos Fuzileiros Navais, onde chegou meu pai Abram em 1929. Seu passaporte exibe o carimbo Hospedaria de Immigrantes da Ilha das Flores, e a data 29 de novembro de 1929.
Ao chegarmos fazia frio em Buenos Aires, mas logo veio o calor e numa manhã ensolarada caminhamos de Maipu ate a Av. Antártida Argentina, para conhecer a antiga hospedaria, hoje Museo de la Immigracion. No caminho passamos pela Torre dos Ingleses, ao lado da estacao Retiro, onde paradoxalmente próximo foi erguido um monumento aos caídos na guerra das Malvinas. A guarda de honra das forcas armadas argentinas em uniformes históricos azul e vermelho executa uma marcha silenciosa. Alguns passantes param, olhar compungido, recordando aqueles inocentes sacrificados pela honra da Argentina, 300 somente no afundamento do Cruzador Belgrano.
Logo chegamos ao Museo. É um grande edifício, bem semelhante aos de Ellis Island, muito bem conservado. Os galhos desfolhados das arvores dão um aspecto mais real daquela época distante onde tantos irmãos atravessaram o Atlântico, em busca da América dos sonhos. As mesas e cadeiras ainda são as mesmas de décadas atrás, os equipamentos hospitalares, camas, malas. Tudo impressiona pela amplitude e o pé direito de uns 10 ou 15 metros. Tudo é tão real… por um momento, envoltos em nossos pensamentos, os olhos semicerrados, alguém se aproxima a distancia, parece até um antigo migrante vindo a nosso encontro, saído da porta ao fundo do alojamento… mas é apenas um funcionario da Imigração, que funciona ali mesmo, atendendo a imigrantes, agora bolivianos e paraguayos requerendo cédulas e vistos.
Um senhor nos atende mui cortesmente, tanto quando chegamos quanto como quando partimos, 2 hora depois. Não sabemos porque nos dispensa um tratamento tao respeitoso. Talvez algum sexto sentido lhe fez perceber que ali estava alguém a quem aquela casa dizia muito. Talvez ele mesmo fosse um filho ou neto de imigrante. Talvez… Uma mesa com computadores permite o acesso fácil ao banco de dados. Basta dar o sobrenome, e em segundos recebemos uma listagem com os dados de seus desembarques. Havia uma tia na Argentina. Penso que nem meu pai soube enquanto viveu, pois nunca nada comentou, mas Miryam, irmã de minha avó Hana Freida casou-se com Eliahu também de Ostrowiec e foram para Moiseville.
Falecida há mais de 50 anos, hoje tem inúmeros descendentes na Argentina, sendo um deles Alberto Marcos, que um dia sonhou com a liberdade e acabou se tornando um dos 1900 judeus desparecidos durante o regime militar. Era bisneto de Miriam, portanto 1/8 do sangue dos Blajberg de Ostrowiec corria nas veias deste patriota, um dos 30 mil que desapareceram nos terriveis anos 1976-1983 (La Violacion de los Derechos Humanos de Argentinos Judios Bajo el Regimen Militar, Editorial Milá, AMIA, 2006, pág.109).
Outro bisneto, Daniel, jornalista e escritor, foi do El Clarin, e levantou o véu que encobria um sórdido movimento neo-nazista, escrevendo o livro Tacuara, la Primera Guerilla Urbana Argentina. Este ano publicou em hebraico o livro Marguerita Serfaty, a Amante Judia de Musolini. Assim prossegue o tempo em sua caminhada inexoravel. Ainda está para ser escrita uma fantastica histórica, de uma pequena cidade a meio caminho entre Varsovia e Cracovia, em cujo escudo de armas se vê a estrela de David e uma meia lua.
Ostrowiec em certas épocas foi uma cidade quase totalmente judaica, e sua contribuicao foi enorme, não so para a Polônia mas talvez para outros paises que tiveram a sorte de receber seus filhos. Toronto, Nova Iorque, Buenos Aires, Israel são lugares que acolheram a diáspora ostrowiense, onde existiram landsmanschafts (sociedades de imigrantes). Hoje não existem mais, a não ser uma em Tel Aviv, que reúne os últimos imigrantes e seus descendentes, fazendo a cada ano um almoço na semana do Yom Hahatzmaut, a que comparecemos em uma de nossas visitas a Israel.
Ostrowiec é uma região rica em minerais, havia importante metalurgica com quase 200 anos que deu emprego a tantos correligonarios, depois foi comprada pelos espanhóis, Celsa Huta. Já a FX Energy porocurou petróleo mas nada achou no poço O-1 e foi embora. Em volta as montanhas dos Carpatos, e da Santa Cruz (Swietorkiski), onde diz a lenda, se escondiam as bruxas. As bruxas continuam por lá, os judeus se foram para sempre. Hoje, em Buenos Aires e no Rio de Janeiro, seus descendentes se contam as centenas, talvez milhares, as sementes transplantadas ao alem mar pela arvore frondosa que vicejou na Polônia Judaica, agora tão brasileiros quanto qualquer brasileiro, e certamente tão argentinos quanto qualquer argentino!
Buenos Aires – 25 a 31 de outubro de 2009
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