75 anos do fim de uma piedosa e vibrante comunidade judaica

75 anos do fim de uma piedosa e vibrante comunidade judaica

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Dia 12 de outubro de 1942. O primeiro dia do mês de Cheshvan 5703 marcou o fim definitivo da comunidade judaica de Ostrowiec, Polônia, até então quase que uma cidade judaica, onde tudo fechava no Yom Kippur. De Ostrowtze, como era conhecida em ídiche, muitos imigraram para o Brasil, onde hoje tanta gente boa descende daqueles que palmilhavam as ruas de terra, em torno do Rynek (mercado).

Naquele domingo fatídico os nazistas esvaziaram o Gueto de Ostrowiec, fazendo os judeus atravessar a cidade em direção à periferia, onde no pátio de manobra aguardavam os trens que os conduziriam ao campo da morte de Treblinka.

 

Idosos, doentes e crianças iam ficando para trás, sendo sumariamente executados. Os mais fracos e famintos simplesmente caiam, sendo baleados pelos cruéis SS, Szupo, Gestapo e colaboradores da policia polaca. Eram brutais, verdadeiros monstros, que espancavam os judeus indefesos com chicotes.

Judeus fazendo covas para enterrar seus parentes e amigos assassinados por nazistas.

Pelo caminho foram ficando corpos em meio a poças de sangue e dezenas de malas, pacotes, sacos, diante de transeuntes mudos e impotentes desta marcha da morte, pela principal avenida, Aléia 3 de Maio, atravessando a ponte de pedra sobre o Rio Kamienna em direção ao pátio ferroviário.

Mesmo assim se ouviam cânticos religiosos, em meio aos gemidos, gritos dos algozes e tiros. Aproveitadores saqueavam tudo que ficava pelo caminho. E não apenas esses pertences foram subtraidos. Foram invadidas por terceiros também casas, lojas, fabricas, oficinas, tudo abandonado compulsoriamente às pressas pelos judeus, ocupadas até os nossos dias.

Crianças de uma escola da comunidade.

Além dos onze mil enviados para a morte em Treblinka, de mil a 2 mil pessoas foram mortas no local. Alguns sobreviveram escondidos, uma parte ficou para trabalho forçado, mas Ostrowiec havia deixado de existir como um shtetl (cidade judaica), da noite para o dia.

Assim descreve estes eventos o Sefer (Livro) Ostrowiec, editado pelas Associações de Imigrantes de Israel, Nova Iorque e Toronto:

“No domingo, antes do anoitecer a cidade foi cercada por homens da SS, Schutzpolizei, Gendarmerie, polícia e colaboradores poloneses e lituanos. Guardas judeus – Kapos – foram de porta em porta, ordenando as pessoas a deixarem suas casas, levando um máximo de 10kg de pertences, e todo seu dinheiros e objetos de valor. Todos estavam com medo. Não havia para onde ir porque estavam cercados. Ninguém sabia o que fazer, nem sequer podiam dizer adeus um ao outro. Foram orientados a se reunir na Praça do Mercado, de repente, de todos os lados tiros foram disparados. Velhos e crianças foram mortos no local, crianças foram mortas na frente de seus pais, e os pais na frente das crianças. Os pacientes do hospital foram baleados em suas camas.”

Sovreviventes de Ostrowiec e ao fundo valas onde foram enterrados mais de 2.000 judeus vítimas dos nazistas.

Todos foram levados para o pátio da escola primária da Rua Sienkiewicz, uma bonita alameda que lembra um pouco as ruas arborizadas de Teresópolis. Hoje a escola tem um moderno parque infantil em volta, onde as crianças brincam sem ao menos desconfiar do passado negro daquele lugar. Nada identifica este local de martírio, cujo capital simbólico equivaleria a uma Umschlagplatz de Varsóvia.

Lá ficaram sem uma gota de água ou comida. Na terça-feira, em grupos de 100 a 120 foram transportados em vagões fechados para Treblinka. A marcha durou todo o domingo 12 de outubro de 1942, do amanhecer ao anoitecer.

Há um túmulo coletivo no cemitério judaico. Aqueles que estavam no Rynek (mercado), tinham diante de si dois caminhos: a morte no local ou em Treblinka. Diz-se que no Rynek morreram oitocentos judeus, mas outras fontes históricas falam de mil ou dois mil.

Em algum local desconhecido do cemitério judaico, se encontra uma vala comum, com os corpos destes Mártires. Do cemitério original restou uma pequena fração de terreno para onde foram levadas matzeivot (lapides) mas elas já não identificam o local dos enterros, pois foram removidas e dispostas aleatoriamente formando uma espécie de mostra. Há um lapidarium, monumento construido com fragmentos das matzeivot. O grande terreno do cemitério original deu lugar a um belo parque em área verde com arvores centenárias, onde a 25 metros de um imponente carvalho, familiares de Israel determinaram o local exato do Ohel (mausoléu) do Santo Rabino Admor de Ostrowiec, Mayer Chil Hallstock. Um novo Ohel já está em fase final de construção, no mesmo local. O pequeno cemiterio-monumento é conservado pela prefeitura, por estar situado em meio a este parque municipal.

Os poucos sobreviventes de Ostrowiec

Tudo era perto em Ostrowiec, Rynek, cemitério, sinagoga, Midrash, concentrados em uma área central da cidade que pode ser facilmente percorrida a pé. Da bela sinagoga de madeira, queimada pelos nazistas, nada restou. Como refere a jovem pesquisadora polonesa Monica Pasztusko, que estuda a historia dos judeus da cidade:

“E assim ficamos com várias versões dos acontecimentos. Isto é muito triste, pois o gueto foi o maior massacre da história de Ostrowiec. E nem sequer sabemos a data ou o local do enterro. A maioria de nós não tem uma consciência das coisas dramáticas que aconteceram naquele dia no Rynek – Mercado, cemitério, praça Floriana, no pátio da escola primária na Sienkiewicz, na Aleja 3 de Maio. Ninguém se importa. Tem coisas mais importantes para se lembrar.”

Como descendentes daqueles judeus que lá viveram, prosperaram, lutaram e sofreram, ao longo dos mil anos da Polonia Restituta, cabe nos perpetuar o seu legado, e a cada primeiro dia do mês de Heshvan, em 2017 correspondendo a 21 de outubro, elevar nossos pensamentos para aqueles martires inocentes, por quem devemos rezar um Kaddish, pela elevação das suas almas.

In Memoriam dos Mártires que pereceram Al Kiddush haShem (pelo Santificado Nome)

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Israel Blajberg
Há 10 séculos seus antepassados paternos saíram de Bleiberg, na Carinthia (Áustria), firmes como o chumbo (Blei) e imponentes como a montanha (Berg), entrando na Polônia sob o Grande Rei Kazimierz. Teve a honra de ser o primeiro Blajberg nascido no Brasil (Rio de Janeiro, 1945), estando hoje a família na terceira geração verde-e-amarela. Professor da UFRJ e UFF e Engenheiro do BNDES, aposentado em 2015. Palestrante e Autor de livros e artigos sobre Historia do Brasil, Militar, Judaica, Genealogia e Viagens. Membro das Ordens do Mérito da Defesa, Naval, Militar e Aeronáutico, e Medalha Pro-Memoria da Republica da Polônia.