COMPARTILHAR

Dia 20 de novembro de 1977, há 40 anos, descia em Israel, o presidente egípcio, Anwar el-Sadat. Era um ato de heroísmo, com risco de vida (como veio a acontecer o seu assassinato), mas era a reconciliação de um dirigente, da maior potência árabe, com Israel e o reconhecimento do Estado de Israel.

Quebrava-se o paradigma de 100 anos de oposição árabe a Israel. A grande cobertura televisiva dava o status de herói a Sadat, que buscava assim se firmar como líder do mundo árabe. Conforme os preparativos e encontro secreto de Moshe Dayan, então Ministro de Exterior do governo de Menahem Begin, com o enviado de Sadat, Hassan Tohami, no Marrocos, foi estabelecido que Sadat receberia todo o Sinai em devolução.

Apesar de ter perdido a guerra do Yom Kipur, mas explorando ter atravessado o Canal de Suez, de surpresa, (apenas aparentemente de surpresa), parecia ser a forma de compensar a derrota egípcia na Guerra dos Seis Dias. Apesar de que tudo fora combinado, Sadat oferecia em troca a reconciliação, numa jogada de marqueting bem preparada e, em consequência, receberia apoio americano, pois pretendia levantar o moral egípcio e obter o apoio e muitos recursos americanos, Sadat fazia a sua propaganda. As coisas se precipitaram, a Síria entrou também na guerra, o general Ariel Sharon desrespeitou o acordo e tudo mudara, mas Sadat explorava a sua travessia.

Sadat falou em árabe no Knesset, o Parlamento de Israel, não assumiu compromisso com a paz, pois usou a palavra salam, que para os israelenses parece shalom, a paz, mas salam, em árabe tem o valor de trégua; paz, em árabe, é a palavra sulch, a verdadeira paz, palavra que Sadat usava nos seus discursos de antes, dizendo ser impossível uma sulch com o traiçoeiro Israel. Os políticos israelenses diziam que quem perde, paga com territórios, assim ficariam com Yamit e Salit, duas pequenas vilas no Sinai, junto da Faixa de Gaza. Sadat falou como vencedor, não abriu mão de um grão de areia do Sinai, conforme ficara combinado previamente.

Quando, alguns meses depois, perguntamos a Begin sobre a entrega de todo o Sinai, respondeu-nos: “- Alguma vez reivindicamos o Sinai?” Não sabíamos que tudo já ficara assentado, apenas podíamos supor algum entendimento prévio. Para nós, os políticos judeus de origem europeia, ou formação europeia, não entendiam do islã. Assim, nunca falaram sobre as dificuldades com essa parte religiosa e política ao mesmo tempo.

Devemos, no entanto, dizer que Karl Marx, já em artigo de 1854, mostrava conhecer o comportamento islâmico, que muitos desconheciam. Diferentemente dos Acordos de Oslo e o acordo com o Rei Hussein, da Jordânia, não houve a presença em Jerusalém, foram feitos em locais neutros, não significaram reconhecimento de Israel. Aliás, Arafat se comprometeu a reconhecer em carta posterior, mas nada foi feito.

Quanto à Guerra do Yom Kipur, ou a Guerra de Outubro, de que falam os egípcios, ninguém nos fará deixar de acreditar que houve entendimentos prévios para dar a Sadat a possibilidade de atravessar o Suez e poder vingar a derrota egípcia de 1967, pagando o preço de se reconciliar com Israel. O General Pacepa, que foi chefe do Serviço Secreto da Romênia, no seu livro Red Horizons, conta que o ditador romeno, Ceaucescu, buscava conseguir um Prêmio Nobel, fazendo a paz de Israel com o Egito. Golda Meir foi convidada a visitar a Romênia em 1972, para entendimentos com Ceaucescu, e quase foi assassinada pelos esbirros de Arafat.

Descobertos, foram presos e, após a saída de Golda Meir, libertados com pedido de desculpas pelo erro! Acreditamos que Kissinger conseguiu convencer Golda a deixar Sadat passar, e se credenciar como herói e fazer a paz com Israel. E se entendeu com o líder soviético Brejnev. Essa estória que contam, de que o agente duplo, convenceu Golda e os generais israelenses de que nada ocorreria diante dos abertos e ostensivos preparativos militares às margens do Suez, é demais para as nossas inteligências, e a Comissão que tratou do desastre da guerra ainda mantém páginas secretas.

Muita gente não acredita, mas a possibilidade do Prêmio Nobel era uma massagem para o ego e a consagração também para Golda Meir. Um amigo nosso, já falecido, contava ter ouvido de um parente, que se encontrava num dos bunkers da Linha Bar-Lev, que toda a guarnição fora retirada, como nos demais bunkers, e até totalmente evacuados, restando cinco soldados para tomar conta. Estavam os cinco, de cuecas, jogando vôlei, quando o rádio chamou para verificar o que sucedia no Canal do Suez. Pegou o jipe e, quando viu as tropas avançando, voltou correndo, pegou os companheiros e fugiram o mais rápido. Houve passagens difíceis até em Camp David, no início de setembro de 1978. O General Moshe Dayan informava a Begin de uma carta de Carter a Sadat, deixando de fora a situação de Jerusalém. Begin chamou a esposa, Alissa, e mandou preparar as malas. Veio a turma do deixa disso, e a carta foi descartada.

Ora, deixar um pequeno grupo e não mandar, pelo menos, ficar de olho, atentos, já era uma falha gritante. Sadat deve ter ido além do acordado previamente com Kissinger e Golda Meir, a velha senhora, como a chamava. Não esperavam a reação do falecido general Ariel Sharon que, contra as ordens do Estado Maior, correndo o risco de Corte Marcial, cruzou o Canal de Suez, em direção ao Egito, e ganhou a guerra. Sim, fora proibido de avançar contra as tropas egípcias. O fiasco de Golda ajudou, evidentemente, a vitória do Likud em maio de 1977.

Israel passava a ter alternância de linhas políticas de governo. Os governos socialistas buscavam, também o Prêmio Nobel a qualquer custo, e fizeram os Acordos de Oslo e a paz com o Rei Hussein da Jordânia. Mas as reuniões se deram em locais neutros, ninguém veio a Israel, o que seria reconhecimento do Estado de Israel conforme dito antes. Sadat foi assassinado e Rabin igualmente foi assassinado pelos opositores fundamentalistas. A história segue, os Acordos de Oslo de nada adiantaram, e se continua em busca de shalom e sulch. Mas devemos ser contra Terras por Paz, somente Paz pela Paz, e não ceder tudo e em tudo.

Print Friendly, PDF & Email